Paul Cézanne

(*Aix-en-Provence, 19/1/1839 - † Idem, 22/10/1906)

1. Paleta de Flaubert

Quinze dias a compor, decompor, recompor Frans Hals, na inútil busca de uma prosa capaz de traduzir a inefável essência de seres e coisa, levaram-me, por associação de ideias, a pensar em Paul Cézanne

Autorretrato, 1877

-- esse Gustave Flaubert dos pincéis e espátulas e cores.

Pierre Giraud, Retrato de Flaubert

É sabido quão lento e doloroso era também o processo criativo de Cézanne, visando a desnudar a realidade num banho austral de batismo que viesse a designar coisas e seres com seu verdadeiro nome e sobrenome. Levou dois anos, de 1875 a 1877, para agrupar, numa pequena tela de 22x19 cm, três banhistas flagradas em espantada nudez pelo voyeur de seu talento, aquele indistinto rosto-chimpanzé que mal se divisa bem no canto superior direito da tela. (Eu disse bem no canto superior direito da tela, ó umbigo do mundo!)

Três banhistas, Museu D’Orsay

Seis anos, de 1900 a 1906, levou para cobrir as dimensões (127,2 x 196,1 cm) de As grandes banhistas

Les grandes baigneuses, The National Gallery, Londres

Ante tão demorada e meticulosa execução, que modelo de natureza humana não quedaria morto(a) de cansaço?

O negro Cipião, cerca de 1867, MASP

A dolorosa ou Madalena, cerca de 1867, Museu D’Orsay

2. Ermitão platônico

Misantropo recluso na platônica caverna de sua percepção, sabia que, enganosos, os sentidos (o da visão principalmente) não poderiam reproduzir a verdadeira realidade. Assim, resistiu ao simulacro de uma realidade que, borrada, se desnudava ante seus olhos, tentando-o diabolicamente para que se entregasse ao gozo fácil das aparências epidérmicas.

A tentação de Santo Antônio, cerca de 1875, Museu D’Orsay

Na superfície limitada e bidimensional da tela, procurava libertar a pintura das limitações sensoriais impostas pelo modelo, fosse ele a dita realidade natural ou humana.

Rochas junto às grutas perto de Château-Noir, cerca de 1904, Museu D’Orsay

Não almejava a semelhança fotográfica.

Mulher com cafeteira, 1890-1895, Museu D’Orsay

Sua realidade essencial parecia encontrar-se num plano acima dos nossos pobres sentidos, --- um plano ideal em que suas sensações se confundiam com suas percepções.

(Avant la lettre, Sensacionismo à Fernando Pessoa[s]!?) Ao cabo, uma realidade estrutural, geométrica, oculta sob a aparência consabida pela pobreza de nossa visão.

Rochas em L’Estaque, 1882-1885, MASP 

3. “Com uma maçã quero assombrar Paris.” (Cézanne)

Procuro entender as intenções da pintura de Cézanne. Mas ela não me cativa. Talvez devido à indigência de minha percepção. Fico com a impressão de que ele foi um pintor que pintou para seus iguais, refinados espíritos, ou seja, seus confrades pintores. Só eles capazes de assombrarem-se, como Cézanne queria, ante as maçãs de suas naturezas-mortas.

Maurice Denis, Homenagem a Cézanne, 1900, Museu D’Orsay

Faça bom proveito quem, assombrado, desfruta de realidades de segunda mão. 

4. Blefe

Nada mais natural que Cézanne, para orgulho da família e do próprio ego (que mal há nisso?), desejasse figurar em páginas de jornais como marco da pintura; tornar-se um acontecimento na história futura das artes visuais, como (o então amigo) Émile Zola vaticinava em L’Événement.

O retrato do pai de Cézanne lendo L’Événement, 1866, National Gallery of Art, Washington

Para tanto, não poupou esforços. Ao pintar mais de trinta autorretratos, cerca de 180 naturezas-mortas, dezenas de paisagens e incansáveis versões de um mesmo tema (como o das banhistas), Cézanne jogou cartadas decisivas com a Realidade.

Os jogadores de cartas, 1890-1892, Metropolitan Museum

Os jogadores de cartas, 1890-1895, Museus D’Orsay

Sacando cartas da manga de seu talento, apostou, em várias ocasiões e versões, que a Realidade poderia facilmente vencê-La, enclausurando-A na angústia bidimensional da tela. Findo o jogo, sua obra resultou num blefe.

Não lhe coube conhecer (pois futura) a lição inscrita na pintura de Magritte:

--- Narciso cego, a Arte, seja qual for, não pode rever-se à imagem e semelhança da Realidade. Seja a sensível, seja a inteligível. *

 

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* Quem não se lembra da lição de Magritte, pode revê-la (que vale a pena!) na pincelada de junho 2012 (Quintas Iluminuras).