Frans Hals

(*Antuérpia, Bélgica, entre 1581-85 – † Haarlem, Holanda, 1666)

1. As bruxas do Haarlem

Quem mais bruxa?  Malle Babbe

           Malle Babbe, a bruxa do Haarlem, Frans Hals

ou essas  gestoras do asilo de velhos?

 As  Regentes do Asilo de Velhos, Frans Hals

 A resposta está na cara. Lição de fisiognomonia --- lembra-se?

Frans Hals, alegre bebedor, cuja anima boêmia e brejeira (não duvido) seria La Bohémienne,

La Bohémienne, c. 1640

ao retratar essas conspícuas senhoras, talvez quisesse fugir à velhice desamparada, garantindo um lugarzinho naquele asilo. (Justa paga de seus pecados, ainda inadimplente, apesar de, septuagenário, ter amargado cadeia por dívidas?)

Hoje esse asilo abriga o Museu Frans Hals, em Haarlem (Holanda). Apesar das paredes vestidas de quadros (mas não só de Frans Hals), quem, a partir do hall, percorrer os corredores, salas e quartos da enorme residência há de sentir a incômoda frieza daqueles cômodos.

No dia em que lá estive, mera coincidência?, um enxame afanoso de idosos zumbia barulhento sob o olhar severo dessas abelhas-mestras, que, gestoras de cadáveres adiados, ensombram o museu,

As Regentes do Asilo de Velhos, Frans Hals, Museu Frans Hals, Haarlem

lembrando-nos ainda agora a casta sisudez de suas regras pontuais. Apesar da menopausa.   


2. Va(idoso) Hamlet                                                                                               

Ao propor esse esdrúxulo título aí de cima, confio, caro(a) leitor(a), na rimbaudiana percepção sinestésica de seu ouvido de ler, capaz de traduzir o duplo sentido que ali se insinua . Assim confiante, prossigo.

Enquadrado na edificante tradição holandesa das cenas de costume, vemo-nos diante de literal natureza morta

Pieter Claesz, A vanitas still life, 1630

--- um discurso que, pincelado sobre a vanidade da vida, se inscreve na velhíssima certeza barroca (memento homo!) de que tudo finda mesmo, meu caro Gôngora, en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.

Hals dá um toque hamletiano ao tema, levando-nos a ver que a velha dúvida de Ser ou Não Ser

Retrato de um jovem com um crânio

dura tão só a breve idade que, para nosso desgosto, vai do berço ao túmulo. O presente, representado pela androginia va(idosa) da juventude tem, de fato, (descartada a piada de duvidoso gosto) o futuro em suas mãos.

           

Detalhe da caveira na mão esquerda.

Na caveira, a sábia certeza do bêbado coveiro shakespeariano de que todo presente será passado no futuro. A dúvida hamletiana de Ser ou Não Ser (entendo agora) está em se o esbrugado futuro será próximo ou distante:

Vai, Idade,

vai, breve Idade.

Segue teu caminho

entre o Ser e o não Ser

--- surdo a essa nossa choraminga hamletiana.

3. Caras-metades

Que nos resta então, senão tentar sobreviver, vicariamente, numa descendência: árvore genealógica (ou será árvore ginecológica?) erguida a partir do tronco (e semente) da virilidade masculina --- naturalmente refestelada após tamanho esforço taquicárdico.

        

  Frans Hals, Married couple in a garden, 1662

Caras-metades, os filhotes, esses sim --- é o que me sussurra o sorriso escarninho desse olhar oblíquo, mas nada dissimulado:


Fisionomias (e fisiognomonias) que, parecidas com o pai ou mãe (ou avós, sei lá),

Jan van Eick, The Arnolfini Portrait

herdam os genes ancestrais dos caracteres também.

Que lhe parece, Jan van Eick? Cara dos pais, focinho dos filhos?



(Já repararam como os pets vão adotando as feições dos pais? dono?)

4. Carpe diem à Omar Kayyam

         Não satisfeito o gozo matrimonial nesse percurso do Ser para o Não Ser, que nos satisfaça então a happy hour --- o sonho molhado a scotch, a breja, a chope sufocado no colarinho alto, a vinho com sua verdade engarrafada ou, enfim, a o que nos mate a sede eternamente juvenil de viver felizes.

Frans Hals, Lute player with glass of wine

 

   De barro é feita a urna

   que me contém, como ao vinho.

   Em ambas, chama diurna

   aquece a Noite a caminho.


E malgrado a idade que sempre nos vai tomando,


 Frans Hals, Monsieur Peekelhaering:

 

 Vem, taberneiro, verte sonhos nesta urna

         (sejam brancos ou tintos, não importa a cor)

         e sopra em meus olhos a candeia noturna:

         é por eles que vela, insone, a Dor.

Frans Hals, O alegre bebedor:

Põe teu lábio à boca da taça

         e bebe o que te diz o vinho:

         “o Tempo que por aqui passa

         é via de único caminho.”

 

5. Brinde   

Que a vida nos brinde com saúde e alegria. E que a noite a caminho seja mesmo ainda uma criança.

Guido Reni, Baco criança