De Ateliês

1. O de Vermeer

Prefiro o ateliê de Jan Vermeer (1632-1675) ao de Gustave Courbet. Pelo menos o de Vermeer oferece uma cadeira aqui ao canto, convite a que me sente e sossegadamente possa vê-lo auto-retratar-se a pintar, pintando Clio, a musa da História.

Vermmer de costas para mim, a dar as primeiras pinceladas na coroa de louros que orna a cabeça de sua modelo, uma modesta Fama de olhos no chão —, ambos absortos não hão de perceber que ali me vejo sentado.

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2. O de Velázquez

Que me perdoe a infanta Margarita e Velázquez e a anã Mari-Bárbola. Que me perdoe o cão, mansidão que nem mesmo o bufão Nicolasito consegue tirar do sério. Que me perdoe José Nieto, o camareiro da rainha, apontando, ora vejam só, que até Filipe IV e sua digníssima esposa estão a espreitar-me pelo espelho, testemunhas de minha indevida intrusão. Juro que não era minha intenção chamar-lhes a atenção, atrapalhar a sessão de retratos.

Não sei onde enfiar meu embaraço. Mesmo que saia de mansinho, seja pela direita seja pela esquerda, os olhos deles hão de me acompanhar, severos, recriminadores.

 Diante das “Meninas” tenho sempre a sensação de que nós é que somos o modelo que Velázquez está a retratar.

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3. O de Gustave Courbet

Ego do tamanho de seu corpanzil, precisava de platéia a vê-lo pintar. Daí esta confusão em seu estúdio. Trata-se de uma “Alegoria Real, Histórica, Moral e Física do meu atelier”. É o que está a dizer à atenta ingenuidade do garotinho, que está a vê-lo pincelar, com posuda negligência de gênio, uma nesga da paisagem de sua Ornans natal. A verdade, bem a Verdade, aquela mulher desnuda a contemplá-lo, inclina a cabeça em direção oposta à de Courbet, talvez não perfilhando a opinião do pintor, talvez não entendendo por que não está ele a servir-se dela, Verdade, como modelo. Afinal, nada mais anti-realista e antinatural e antiverdadeira que toda aquela cena teatralmente armada. Coitada, talvez não perceba que ela não é bem o centro. Em verdade, Courbet está dando-lhe as costas. Como está dando as costas a um rico casal, possível comprador de seus quadros, romântico desdém ao argentarismo e consumismo da burguesia. Como está dando as costas ao Socialismo e ao Realismo, ali representados por seus velhos amigos e admiradores: Proudhon, Max Bouchon, Champfleury – note-se-lhes a expressão crítica e desalentada.

O centro mesmo, minha cara e nua Verdade, o centro mesmo, meus caros Proudhon, Bouchon e Champfleury, o centro e umbigo de tudo isso, só não vê quem não quer, é Courbet e sua tela a pincelar a cor local de Ornans.

De que lado exercer meu papel de um extra a mais nessa cena épica de um Ego desmesuradamente romântico?

Como não sou nem seu velho amigo nem seu velho admirador, talvez me caiba achar um lugarzinho na massa anônima, sofrida e alheada à esquerda de quem venha a contemplar “O Estúdio do Pintor” Gustave Courbet (1819-1877).

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Pensando bem, o melhor é correr para o lado direito, de passagem repreender o casal de namorados em plena e descarada bolinação (metáfora de Courbet a bolinar onanisticamente seu Ego?) e pedir licença a Baudelaire para que me arranje lugar na mesa (atenção, Revisão, não à mesa!), em que está sentado, bem à extrema direita do quadro, lendo um livro, seu paraíso artificial, alheio a tudo que se vê à volta.

E aí, meu caro  Beaudélire?

Tá a fim de um charo?

Não. Deixei de fumar. Só tô a fim de saber como é que você escapa de toda esta épica encenação do umbigo de Courbet?

Você não vê que estou aqui num cantinho, protegido por uma coluna, escondido pela obesidade filistéia desse casal burguês aí bem na frente?

Tá bom. E daí?

Courbet, com o sangue vinhateiro de sua família, mal sabe que é um burguês filisteu, malgré lui. Mal sabe ele, que me deixa viver na barafunda deste ateliê, que eu sou a porra-louca expressão de seu inconsciente. Só por isso me atura. Quando eu é que tenho que aturar seus porres românticos, a vomitar hinos republicano-socialistas numa sociedade, num mundo que sempre será aristocraticamente neoliberalburguês.

Tá bom. E daí? Continuo na mesma.

Ele mal sabe... E você também não percebe... Ele mal sabe que, dando as costas ao Socialismo de Proudhon, ao Realismo de Fouchon e  Champfleury, como está neste quadro de seu ateliê, ele mal se dá conta de que, se todos dermos as costas a essa merda toda, sua “Alegoria Real, Histórica, Moral e Física” deste estúdio em que nos vemos aprisionados corresponde ao singular e pessoalíssimo “Simbolismo” que meu Umbigo também proclamará. Sabe o que estou lendo, alheio a tudo isso?

?...

Meu esboço, a lápis, de um futuro poema. Acho que vou intitulá-lo “Correspondências”...