Autorretrato de um texto, I

Não sei muito bem por que estou a dar estas pinceladas sobre a pintura alheia.

Pensando realisticamente, já que de Courbet e Realismo acabei de escrever, que editor haverá de aventurar-se a publicar minhas pinceladas ilustrando-as com fidedignas reproduções, aquelas requeridas pelo texto? Porque, se não reproduzi-las, se não diagramá-las, segundo a exigência vagabunda destas notas, que leitor, a não ser os happy few dotados de prodigiosa memória pictórico-visual ou os assíduos frequentadores de catálogos e museus in loco (Louvre, d’Orsay, British Museum, Jeau de Paume, National Galery, Espace Dali, museus de Picasso em Barcelona e no Marais, Reina Sofia & Cia Bela...) que leitor haverá de ver o que vejo ou de contestar o que vejo. Nada mais absurdo que um livro sobre pinturas e pintores para ouvidos de ver.

Charles Bukovski,  último moicano da geração beat de Jack Kerouac, escreveu, em não me lembro qual livro, que, se fosse pensar nos virtuais (e virtuosos?) leitores que teria, não martirizaria os dedos nas teclas da máquina de escrever, embora a pós-modernidade lhe tivesse dado um computador que sempre lhe queria corrigir o texto, a registrar que um programa de auto-correção não estava instalado, Deseja instalá-lo agora? Sim. Não. Não enche o saco, pô! Cancelar.

(Quem há de querer um tirânico computador, quando se foi e é uma simples máquina de escrever? Alcóolatra, workholic, escrever era para Charles Bukovski sua happy hour. Imune à cirrose, argonauta de homéricas ressacas, sobreviveu, ao cabo: hollywoodianamente bem, reconhecido pelo filisteísmo da crítica politicamente-correta dos USA e pelos porres (vicários, coitados!) de seu leitores, a maioria, creio, abstêmios. Afinal, a literatura sempre foi um meio de se viver, confortável e seguramente, a aventura e os riscos alheios.)

Chegado aqui, via cambaleantes passos de Bukovski, chego à conclusão de que estou a dar estas pinceladas na pintura alheia simplesmente por uma questão parnasiano-escultórica. Carmatel em punho, beneditino cultor da serena Forma, longe do estéril turbilhão da rua, eis-me, olavo-bilaquianamente, a esculpir o texto. Meu manual de escultura e caligrafia. Sorry, Sr. José Saramago.

Bebeu, cara?

Tudo isso para dizer que estou a escrever isto para o pileque de quem queira embebedar-se de pintura. Ora, vamos lá, não fique nas tintas. Como diria Baudelaire, enivrez-vous! Desejo-lhes, pois, um beaudélire!