Francis Bacon: flagrantes da realidade

(*Dublin, 28/10/1909 – † Madrid, 28/4/1992)

1. Caos

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No ateliê, escombros de uma guerra, a travada entre Francis Bacon e a realidade, cujo princípio é a massa informe, o caos das bisnagas esmagadas e vazias, a prontidão dos pincéis em riste à espera do click luciferino que dará à luz as trevas da natureza humana.

 

2. Olha o passarinho!

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Finda a batalha, em meio aos destroços, arrumadinho só ele, em pose de desolado abandono, menino posto de castigo pelo pai, um militar severo que não lhe perdoou nunca a bagunça da vida, desde o dia em que o flagrou a experimentar, vaidoso, a lingerie da mãe.

 

3. Quem é quem?

Imagens discordantes.

Primeira essa, a do olho da câmera bacon_castigo_atelier.jpg (69614 bytes) que nos vê e reflete numa óptica

enganosamente figurativa.

Segunda, essa outra, a do olho do pintor bacon_autoretrato1973.jpg (48146 bytes)

 

que se vê e se reflete: espelho e expressão de sua alma.

 

 

4. Imagens em foco

Será o olho humano capaz de refletir e reproduzir a verdadeira realidade?

Isso indagava Francis Bacon ao encarar o problema da reprodução da verdadeira realidade.

Embora cercado, no ateliê, de reproduções fotográficas, fossem artísticas ou meramente jornalísticas, que o inspiravam e instigavam, para ele a fotografia era o instantâneo da epiderme, o zoom da superfície, a hipocrisia dum espelho.

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O olho próprio ou alheio também não passa de um espelho hipócrita ou míope em que mal nos revemos ou enxergamos mal a realidade. Por isso, o olho precisa de ajuda, seja a dos óculos, luneta, telescópio, seja a da retina da câmera, para ver --- não necessariamente enxergar.

Só o raio X da pintura é capaz de revelar o mistério de toda aparência.

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5. O ser humano?

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Postas de carne. Sacrificada à vigilância feroz do superego --- esse açougueiro que, mesmo de  guarda-chuva, terno ou gabardine, mal esconde, sob a hipocrisia social do traje, a matéria animal de que somos feitos.

 

6. A mulher?

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Uma monstruosidade cubo-expressionista. Ainda assim capaz de atrair o voyeur espelhado em nossa retina.

 

7. O amor?

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Um vale-tudo.

 

8. A vida?

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Sujeira que hidrante nenhum há de lavar e levar.