No olho da rua

 

1.     Pichação

Grafite tem nada a ver com pichação. Pichação, com sua criptografia, desnuda falta de talento, analfabetismo pictórico,

exercício de primária caligrafia.

Já o grafite, com sua rebeldia de excluído e algum toque artístico, quis tornar muros,

 

vagões

e  paredes

Fachada decorada com grafite, em Olinda, Pernambuco.

em telas, reclamando reconhecimento para fugir ao anonimato.

Afinal, quem não sabe?, o sonho de toda exclusão é ser incluído no banquete social, esse rega-bofe servido para poucos.

Passe o paradoxo: o grafite pôs-se no olho da rua.

E, em seu sonho de ascensão, transferiu-se para galerias e museus. Subiu a escada social, ocupando o espaço da tela, como se,

manifesto complexo de inferioridade,

 visse só o quadro como digno suporte de sua arte.

 

2. Basquiat

Ilustração dessa história de proveito e exemplo?

(*Brooklin, 22/12/1960 - † Manhattan, 12/8/1988).

Da pichação contestatória, sob o pseudônimo de SAMO Shit, acrônico (entenda-se, abreviatura corrompida) de SAMe Old Shit),

passou pelo grafite que, so called avant garde, chegou às telas, sob o rótulo-cabeça de neoexpressionismo. 

Sem título, Basquiat

Graças à sua ancestralidade rupestre, 

não se espere do grafite o figurativismo hiperrealista de um Norman Rockwell.

April fool (Primeiro de Abril), Norman Rockwell

No traço primitivo do grafite, o DNA de um ritualismo mágico

Tenor, Basquiat

que parece querer exorcizar os demônios internos e externos.

Repelir espíritos, Basquiat

Apesar da ascendência naif e infantil do traço, Basquiat assegurava (outro april fool?):

Tanto acreditaram, que foi acolhido por museus e marchands, como Bruno Bischofberger e Mary Boone, 

cuja galeria abrigou por alguns anos quadros de  Basquiat. Que, agradecido, lhe prestou a homenagem acima: Mona Lisa sem enigmas, já que escancarados na bocarra lambuzadamente voraz e no tapa-olho pirata.

3.     De olho posto ainda na rua

As telas de Basquiat passaram a ser muros e paredes vicários

Autorretrato, Basquiat

─ simulacros da rua abandonada por sua arte. 

Jimmy Best, Basquiat

A exemplo de Jean Dubuffet (*Le Havre, 31/7/1901 - Paris, 12/5/1985), embora sempre lhe tenha negado a influência, seja na temática, seja no traço,

a vida na grande cidade

Galleries Lafayette, Jean Dubuffet

e os grafites urbanos 

Tissu d’épisode, Jean Dubuffet

passaram a povoar e a inspirar as telas de Basquiat.

O marketing soube fazê-lo cair no gosto do público, entronando-o como marca requintada ─ ad usum delphini.

King Brand, Basquiat

Noblesse oblige.

Sentindo-se culpada, a sociedade (de liberais obnóxios, i.e., funestos, nefastos?)

Obnoxius liberals, Basquiat

pagou regiamente o débito de centenária discriminação sociorracial, fazendo-lhe a fama e a fortuna.

(In Basquiat we trust)

Conferindo-lhe o sucesso devido aos Wasps (White, anglo-saxon and protestant), acabou por coroar-lhe também de louro (platinum blonde?), à Wahrol, com quem emulava no mercado.

General Electric with waiter, Basquiat e Warhol

Talvez sem o perceber, ia ladeira abaixo numa fria. Cavalgava a morte. 

Riding the death, Basquiat

Eróis sem H, nessa vida nada eroica, o homem e o sucesso também são produtos perecíveis, têm data de validade.

Eroica, II, Basquiat

Haverá quem diga que, afogado in the same old shit da onda implantada e promovida pelos marchands,

SAMO morrera, sopesados os pró e contra artísticos,

The death, Basquiat

bem antes da overdose

que o levaria.

Na tela Lápide, dedicada a Andy Warhrol (22/2/1987), Basquiat concebia a morte

Lápide, Basquiat

como tripla porta cujos gonzos só levam a duas entradas ( ou saídas?) conducentes

(vejam lá a simbologia grafitada)

a que Céu ou a que  Inferno?