Belfast
 

Não conheço Belfast. Aliás, da Irlanda, além do bateau ivre da viagem do Ulysses/Bloom, de Joyce,

conheço a Guinness, essa black beer  


que ninguém pode morrer sem experimentá-la.

Pois bem, num domingo tediosamente soporífero como todo domingo e todo o Ulysses, do Joyce, estava coçando e, vendo um programa na TV (Espanhóis no Mundo, acho), vim a saber que, a exemplo de Berlim, Belfast, capital da Irlanda do Norte, tem seu muro da vergonha,

 ironicamente chamado de “linha de paz”, separando católicos e protestantes, com trechos que chegam a ter quinze metros de altura. Conta-se que no muro se abrem centenas de portões que permitem a travessia de veículos e pedestres.


 

Portões que, fechados no começo da noite, deixam as ruas desertas e perigosas. O problema é que, mesmo à luz do sol, as pessoas não se sentem seguras no “lado do inimigo”.

O tratado de paz assinado em abril de 1988 foi, como se diz, para inglês ver,


 

já que não reunificou a cidade. Católicos e protestantes

não estudam juntos, não utilizam os mesmos hospitais e enterram seus mortos em cemitérios distintos.


 

Paz aos pedaços, a pendenga está em que 48% dos protestantes aprovam a ligação com a Coroa britânica


 

 e 45% dos católicos, independentistas,


defendem a unificação do território à República da Irlanda, seu país de origem.

Ânimos inflamados (ira não é só a sigla do Irish

Republican Army), 

casas e muros

 estampam o incitamento ao ódio,


cuja máxima beligerante, de Publius Flavius Vegetius Renatus,

é aquela estampada em fortes e quartéis militares ─

se vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te para a guerra, reza a tradução do eclesiástico idioma):

Divididos pela Fé, cega a ponto de não enxergarem a insanidade da divergência, até quando vão esperar uma nova vida à sombra da cruz

que deveria irmaná-los e não separá-los? 

O que desejar aos católicos e protestantes de Belfast?

Quem sabe, assim, ao sabor da unanimidade, ouçam harpas celestiais


dedilhadas harmonicamente, 

 e ponham abaixo as desavenças sectárias:

 

Antibelicista como James Joyce, cujo nada acontecer daquela vazia e tediosa quinta-feira do dia 16 de junho de 1904, que, sob uma lenga-lenga perdigoteando interminável, está a rebaixar parodicamente a heroicidade guerreira da épica clássica ─ que me leiam a barafunda desses grafites

como se fossem a guinness-embriaguez de monólogos interiores do anti-herói Leopold Bloom e de sua cara-metade Molly, essa destecida versão doidivanas e adúltera da fidelíssima Penélope.