Para você, minhas impressões de Jean Béraud

(* São Petersburgo, 12/1/1849 – Paris, 4/10/1935)

 1. Autorretrato com retoques

Autorretratou-se com a dignidade póstera e pétrea de uma estátua.

 Nada mais natural para quem, russo de nascimento mas parisiense de coração, será condecorado com a Legião de Honra em 1894: Voilà! Son jour de gloire est arrivé!  Orgulhoso da pátria adotada, sem dúvida assoviaria a plenos pulmões a Marselhesa, um dos enfants de la Patrie. A Marselhesa

 

2. Lambe-lambe

Quem leu o ensaio “Paris, capital do século XIX”, de Walter Benjamin, há de lembrar a páginas tantas, numa nota de rodapé, a distinção entre flâneur e badaud. O flâneur deambula pela cidade com plena, consciente e atenta posse de seus sentidos.

A jour venteux   Blvd des Capuccines,

Já o badaud, raptado pelo espetáculo que lhe assalta os sentidos, vê-se absorvido pelo mundo exterior, que o inebria a ponto de fazê-lo perder a identidade e confundir-se com a multidão.

Rue de la Paix

O clic maroto do olhar de Béraud  é o do flâneur que flagra o cotidiano das ruas de Paris com a bonomia encantada que em tudo vê novidade e beleza.

Blvd des Poissonières

            Diante dos quadros de Béraud, vejo-me como um badaud imerso na multidão

Les Halles

ou prestes a navegar o bateau ivre de uma taça de vinho. Se, dizem, uma somítica taça de vinho faz bem à saúde, imaginem quanto bem fará toda uma garrafa.

 

 

 

(Ainda mais se for um Chateau La Tour de Béraud.)    

 

E a senhora, resistiria a um merecido descanso à sombra de um croissant e à beira de uma xícara de chocolate?

Pâstisserie Gloppe

(A gula é pecado capital, mas, na capital francesa, a penitência e martírio de subir, degrau a degrau, penha acima, a escadaria que, ofegante, nos leva à basílica de Sacre Coeur é garantia de plena absolvição.)

 

3. Santa alma

Talvez graças ao seu DNA russo, vem a pelo de seu pincel o registro dialético do conflito entre a riqueza ostentatória e a pobreza envergonhada.

  An evening soirée   Le Mont-de-Pieté

 An elegant couple entering a box    Le sortie du Bourgeois

 

           Talvez ainda graças à religiosidade ínsita de sua alma eslava, vem a pelo de seu pincel a crítica ao argentarismo e hipocrisia farisaica de uma sociedade que diariamente depõe em terra o magistério de Cristo

  Depositio

incapaz de, arrependida, prostrar-se e reconhecer também como seus os pecados alheios.

  Madallene at the house of the Pharisees

 

4. De legendas e silêncios mundanos

Gosto de brincar com os quadros de Jean Beraud, seja renomeando-lhes os títulos,

La Dame Utile

GPS

Backstage

 ANSIOSAS À ESPERA DE DEGAS?

A Esgrimista

            PALPITANTE DE AMOR

seja dispondo-os numa ordem que nos conta uma história cujo silêncio é de uma eloquência gritante:

  A Espera    A Proposta

  Cena no Café   Bebedores de Absinto

 

5. Melodrama

Quanto a mim, digo-lhes o que me dizem as Libras inscritas nessas posturas e gestos:

  The box by the stalls

DE CAMAROTE

A potranca de promissoras ancas, modista na Rue de La Paix,

  A Modista

para valorizar a mercadoria, fez-se difícil aquela noite lá no camarote do teatro. E, estratégia para aumentar a fome pantagruélica do pretendente, resiste por mais uma semana a seus rogos e propostas.

Ardente de paixão, Jean-Michel (sim, chama-se assim o cavalheiro voyeur que de camarote a contemplava, na verdade um cafetão de poucas letras), convence Norinne, sua submissa e letrada operária do meretrício (leitora, revele-se, da Comédia Humana de Balzac), a que escreva uma carta apaixonada

  A Carta

à potranca de promissoras ancas, jurando que há de matar-se, ateando fogo às vestes, se ela logo,logo não for vê-lo, dando-lhe uma mais convincente prova de amor:

---- Com um beijo faminto e molhado nessa boquinha gulosa.

 Eternamente teu aqui na terra. Ou lá no Inferno (pois, se não vieres, hei de casar-me com a Morte!)

 Jean-Michel.

Acreditou na carta. Boa alma, querendo evitar que um cristão fique sem sepultura, extrema-unção e viático, corre apressada ao encontro do amado, a fim de impedi-lo que cometa o tresloucado gesto.

--- Pare, pare!

  Stop

A cavalgada às pressas resultou em lágrimas amargas.

  Misdeed

O malfeito acabou sem nome nem sobrenome.