Cicatrizes da Culpa

 

─ 8 a 16 de fevereiro 2015.

Berlim, tomada aqui como metonímia da Alemanha, não quer esquecer as cicatrizes abertas pela Segunda Guerra Mundial.

Pesada culpa sobre os ombros, procura expiar a loucura nazista de Hitler, cujos sadismo, masoquismo

Reminiscências de Stalingrado, Franz Eichhorst, 1943

e necrolatria, aleijões de sua natureza psicopata,

A ilha dos mortos, Arnold Boccklin

estavam expressos nesses quadros de seu acervo pessoal.

Tem Berlim plena consciência de que a História é a lembrança do esquecimento humano.

Na Opernplatz, uma placa

 lembra a insanidade que carbonizou milhares de livros em 10 de maio de 1933,

         

sob a desculpa de apagar a incandescência do Conhecimento ─ esse fogo roubado por Prometeu.

 (Em Fahrenheit 451, de François Truffaut, 1966,

com seus bombeiros

e cândidas velhinhas piromaníacos,

toda e qualquer semelhança com a realidade não terá sido mera coincidência.)

À porta da estação Wittenbergplatz,

a lembrança ignominiosa dos campos nazistas de extermínio:

No interior do Parlamento alemão, em Berlim, hoje reconstruído, ainda se mantêm registros da devastadora invasão russa:

Ora, senhores e senhoras, não podemos também nos esquecer do Muro de Berlim,

que não pode ser visto com olhar turístico de quem passa à toa pela vida e compra, à guisa de souvenir,

uma lasca do muro com a devida garantia de seu raivoso pedigree.

Se alguma lembrança devemos levar da visita é a de que

East Side Gallery

é uma galeria a céu aberto, onde grafites artísticos, alguns bem humorados (só dói quando rimos?), e pichações iradas lembram-nos a vergonha de um muro que dividiu Berlim, além de separar, até sua queda, dezenas de milhares de famílias que ficaram sem contato algum.

Havemos de lembrar sempre que o Muro de Berlim (Berliner Mauer), barreira construída pela República Democrática Alemã (Alemanha Oriental  comunista) durante a Guerra Fria, circundava toda a Berlim Ocidental (capitalista),

separando-a da Alemanha Oriental (socialista), incluindo Berlim Oriental. Ora, quem não sabe, este muro, além de dividir a cidade de Berlim ao meio,

simbolizava a divisão do mundo em dois blocos ou partes: a República Federal Alemã (RFA), que era constituída pelos países capitalistas encabeçados pelos Estados Unidos ; e a República Democrática Alemã  (RDA), formada pelos  países comunistas  sob jugo do regime soviético.

Selado pelo beijo de Walter Ulbricht, líder da RDA, e Nikita Khruschov, primeiro-ministro russo,

o Muro era patrulhado por militares da Alemanha Oriental comunista

com ordens de atirar  (a Schießbefehl ou "Ordem 101") para matar  quem, atleta esperançoso, tentasse ultrapassar a barreira:

O Muro da Vergonha tem curriculum vitae et mortis.

Construído na madrugada de 13 de agosto de 1961 , com 66,5 km de gradeamento metálico, 302 torres de observação, 127 redes eletrificadas com alarme e ferozes cães de guarda,

 ─ o Muro de Berlim durou até 1989.

(Tenho a convicção de que ainda vivemos na Caverna platônica, condenados a vislumbrar simulacros da verdadeira realidade e a ter meras opiniões. Sobretudo acerca da veracidade histórica. Se, por ventura, há uma nova Idade na História desse planeta (Idade Pós-Contemporânea?), minha opinião é a de que ela inicia na noite de 9 de novembro de 1989 com a queda do Muro de Berlim,

depois de 28 anos de existência, 80 mortes,

112 feridos e milhares de aprisionados na correnteza das  tentativas de fuga

─ segundo dados do regime comunista, cifra contestada por órgãos internacionais de Direitos Humanos.)

Se quisermos salvar nosso habitat, como pede um dos grafites,

não podemos simplesmente ficar em cima do muro:

Aprendamos, sem esquecer as lições do passado, que, Demiurgos do Futuro,

              

sempre erguemos um mundo que só é o que é

 porque feito à nossa imagem e semelhança

─ nem sempre humana.

é só o que nos cabe nessa diabólica caixa de Pandora que nos coube:

Quem nos garante não seja a Mitologia a memória simbólico-ética da História de nossa espécie?