(*Rosário, Ar., 14/5/1905 – Buenos Aires, 13/10/1981)  

Juanito pescando, 1962

Não gosto do Antonio Berni surrealista, cuja pincelada e traço

A sesta e seu sonho, 1932

me lembram De Chirico. Percepção vocacionada para a materialidade do real sensível, a abstração inteligível do metafísico escapa à sua paleta e pincel. Por isso prefiro seus primeiros passos, misto de sonho e melancolia, a caminho

Primeros passos, 1937

da grandiosidade e da aspereza espinhosa

 

Autorretrato com cactus, 1934

de seu Novo Realismo que, inspirado pelo muralismo mexicano de Siqueiros, provou ser possível fazer pintura de cavalete com monumentalidade revolucionária, em protesto

Manifestação

à Década Infame que, nos anos trinta, semeou desemprego,

Desocupados, 1934

paralisou o campo

Chacareros, 1936

e não parou, por anos a fio, a semear retirantes:

La marcha de los cosecheros, 1953

A miséria era retrato de muitas famílias:

A  família

Mesmo quem tinha o que dividir à mesa, no festivo dia do Senhor,

O almoço

parece comer, melancolicamente, o pão que o diabo amassou.

O sonho de germinação de uma nova ordem social, na abóboda das Galerias Pacífico (paródica Capela Sistina dentro de profano templo de vendilhões),

Germinação, 1946 

ficou no sonho. Outras décadas infames haveriam de vir. E Berni haveria de registrá-las, tangamente, nas décadas de sessenta a oitenta, em duas personagens arquetípicas dos condicionalismos sociopolítico e econômico da América latina: Juanito Laguna, títere desengonçado às mãos de cordéis sociais,

Juanito dormindo

e Ramona Montiel, cujo itinerário

A grande tentação

de costureira a prostituta ─  melodrama de todo tango que se preza ─ já era de  esperar,

A espera

dispensados os serviços oraculares do tarô.

Ramona y la adivinha,1976

Dejetos sociais, nascidos da pobreza,

La navidad de Juanito

Juanito

Juanito ciruja

e Ramona

El examen

serão compostos com colagens, aproveitando o lixo industrial:

Banhando-se sobre latas

O monturo, aos olhos de Berni, pode ser crisol e crisálida de sonhos e borboletas.

Sem título

Poético protesto, o sonho e a esperança de reciclá-los socialmente sobem rumo ao céu nas asas da pipa de Juanito.

Juanito y su barrilete

Fica-me a impressão de que Juanito descende de O menino e sua  moeda, nascido na Década Infame de 30


 

─ triste imagem de que, não obstante o tempo passe, as mazelas sociais se eternizam. Como futuro do passado, diz a certeza profética do Pe. AntônioVieira.

 
 

(Ouçam “Chiquilin de Bachin”, de Piazzola e Ferrer. Não veem naquele angelito con blue jeans traços de Juanito Laguna e de O menino e sua moeda?)