Espelhos

1.   Borges

Intertextual, a ficção de Jorge Luis Borges cita e dialoga com obras existentes ou imaginárias.

Cegos, seus olhos estão encerrados numa biblioteca,

A biblioteca de Borges em Paris, Nestor Sarmiento

que o lê, reescrevendo-o.

Estilhaços de espelho reproduzem o rosto seu e a labiríntica realidade que ele, Borges, não vê, procurando decifrá-la.

Homage a Jorge Luis Borges, G Cuerca, 1999

Metempsicose, foi Pierre Renard, autor de si mesmo e de um inexistente Quijote,

Octavio Ocampo

esse também exilado numa biblioteca.

2. Borges

Funes, o Memorioso, de Borges, me parece uma versão do Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa(s).

Almada Negreiros

 

Tê-lo-ia conhecido o argentino? Saberia da existência de Caeiro?

Confessa conhecer Camões, Eça de Queiroz, Euclides da Cunha...

Recordo que, com sua memória prodigiosa,

Irineu Funes, a exemplo de Locke no século XVII e Caeiro no XX, postulava um idioma impossível no qual cada coisa individual, cada pedra, cada pássaro e cada ramo tivesse um nome próprio, identificando-os precisamente ao evocá-los.

Custava a ambos, Funes e Caeiro, compreender que um signo genérico e arbitrário, fosse qual fosse, pudesse nomear tantos seres díspares nos diversos tamanhos e formas.

Funes não era poeta como Caeiro, a quem coube, frustrado Adão no Fiat Lux divino, o silêncio deíctico de apontar coisa a coisa da inefável realidade: única maneira possível de nomeá-las, preservando-lhes a inalienável identidade.

 

3. Vieira

Enquanto teve voz a troar nos púlpitos e outros papéis, autopsicografou-se Deus.

Ventríloquo de desígnios ocultos entre linhas da Escritura, soletrou no Passado o Futuro de um Portugal com cinco chagas assinalado.

A Breve idade da Vida

Deus fez-me à sua imagem e semelhança,

dotou-me de sua ciência e segredos.

Criado valido de sua privança,

dou conta à Terra de nosso degredo.

 

Co’a Chave do Profetas narro a História

do Futuro: presente do Passado.

Gravada está em minha alma a memória

do que, por dito, será consumado.*

 

Inútil o Santo Ofício calar-me

a voz na Escritura confirmada:

não se amordaça o Verbo em carne eleito.

 

Se não me couber ver o dito feito,

descabido seja o querer Deus dar-me

vista do Céu na retina apagada.

 

(In Palimpsestos- uma história intertextual da Literatura Portuguesa. Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997,)

 

 

*No manuscrito de que dispomos, sobre “dito” aparece a palavra “mito”. Mudança que não chegou a consumar-se. Como, de resto, não se consumou o dito (mito?) Quinto Império veiriano.

 

4. Bernardes

O retrato que se pinta do Padre Manuel Bernardes ─ autor ingênuo, crédulo, sereno, suave ─ não corresponde à realidade. Parafraseando Guimarães Rosa, o demônio vigia em seus crespos de homem.

Escrita entre os anos de 1674 e 1708, a obra de Bernardes soma onze títulos a encimar dezessete tomos.

Toda ela escrita para autoconvencer-se como não se implicam nem contradizem livre-arbítrio e predestinação divina, como se concorda a liberdade humana com o pequeno número dos eleitos.

Afinal, onde a salvação? Em nosso livre-arbítrio a trilhar o bem ou num misterioso e caprichoso alvedrio divino que salva quem bem quiser?

Todo o esforço para compreender o insondável desígnio divino deve ter-lhe esgotado a razão.

Dois anos antes de morrer, mergulha o pio oratoriano na mais triste idiotia: “parecia um menino, chorando como eles choram e usando do mesmo vocábulo que eles usam”.

Vinde a mim as criancinhas, que deles será o reino dos Céus? Predestinava-o Deus à salvação?

Assim, vinha a Divindade escrever na laje de seu túmulo o epitáfio escrito pela mão do dogma:

 

Aqui jaz

O Pe. Manuel Bernardes

(20/8/1644 – 17/8/1710)

Em cuja vida inscreveu Deus Nosso Senhor, e quis,

embotando-lhe a agudeza da Razão,

que testemunhássemos, no espelho de uma vida exemplar, o como se concorda

a liberdade humana com a predestinação divina.

 

(In Palimpsestos- uma história intertextual da Literatura Portuguesa. Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997,)

  

5. Sá-Carneiro,o Esfinge Gorda

Dispersão, 2

Onde existo que não existo em mim?

Em que pântano ou jardim estagnado

põe-se a florir quem, deposto de mim,

deixou-me, ébrio de Além, exilado?

 

Sinto que de mim me sou feito alheio,

memória que só me lembra esquecer.

Se me busco é com saudade e receio

do que fui um dia sem me conhecer.

 

(Devoro minha alma por decifrar:

Esfinge Gorda sem Édipo à mão,

Sou um papa-açorda a me voltear,

Rei a tilintar guizos de truão?)

 

Se me vagueio, encontro só indícios

de Oiro disperso no que nunca fui.

Ascender ao Além é precipício,

voo de Ícaro que ao Sol se dilui.

 

Desterro de alma nimbada de Além,

oiro poente em Tardes-catedrais,

sou aqueloutro que me habita aquém

do poeta aureolado em vitrais.

 

(Rei a tilintar guizos de truão,

devoro minha alma por decifrar:

Esfinge gorda sem Édipo à mão,

sou um papa-açorda a me voltear?)

 

Quero ser eu plenamente, mas sou

só o Outro que deseja ser Eu,

asa que se lançou mas não voou,

chama que por deflagrar nunca ardeu.

 

Ai a dor de quase ser dor sem fim

da dispersão que quase me ressoa.

Bem visto, quase a dor de quem, ao fim,

por ser quase não chego a ser Pessoa.

 

(Sou um papa-açorda a me voltear,

Rei a tilintar guizos de truão:

devoro minha alma por decifrar,

Esfinge gorda sem Édipo à mão.)

 

(In Palimpsestos- uma história intertextual da Literatura Portuguesa. Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997,)

  

6.Eça de Queiroz, Fradeco e Fradique

Eça de Queiroz, Bordallo Pinheiro

O monóculo conferia-lhe um ar de relojoeiro preciso. Contudo, foi, no lavor do estilo, um ourives.

Realista de primeira hora, cultivou as artes... médicas. Andou dissecando o cadáver da sociedade a asséptica distância.

Ele, que saboreava o requentado bon goût em França e Inglaterra, abandonou, enojado, o prato-feito das carnalidades realistas. Em momento azado, mudou de pena, deixando o bisturi charlatão como relíquia dos tempos em que lhe não faltava “esse descarado heroísmo de afirmar” ─ que criara, através da universal ilusão, a religião da Ciência                             

No claustro do gabinete, vemo-lo agora: beneditino, trabalha e lima e sua, a escrever suas últimas páginas com rico cheirinho a Igreja: Raposão reconvertido em Teo(odor)rico ─ soe o sotaque alemão de Topsius.

Fradeco ainda, apesar da correspondência que se faça com Fradique, esse cultor de uma prosa jamais escrita.

(Con)vencido da vida, ei-lo a morrer, serenamente, em Paris. Aposentado em torreões Ramires: a desde sempre ilustre casa da Arte. Aristocraticamente longe, pois, da “choldra” que era Portugal. E a vida.

Profissão de Fé

Invejo o ourives quando escrevo,

longe do estéril turbilhão da rua.

(Imito-o quando atento descrevo

e narro o quanto a lima sofre e sua.)

 

Firo o cinzel na frase co’o enlevo

de quem extrai Vênus da concha nua

ou incrusta em frágil Forma o relevo

doutra Deusa que meu lavor cultua.

 

Eis-me do Parnaso beneditino.

Realista arrependido e descrente,

deixo a prosa bárbara de cruezas,

 

a narrar milagres do Deus menino.

Porque a Verdade, gêmea da Beleza,

Só na Arte pura é viva e presente.

 

 

(In Palimpsestos- uma história intertextual da Literatura Portuguesa. Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997,)

 

7. Camões

Camões, Almada Negreiros

À feição de Camões

Não, nunca tive salgueiros

onde a lira pendurar,

nem tampouco cativeiros

de Sião por me encontrar.

 

Bem outra Babel me habita

sobre também rios que, vãos,

manam de mágoas avitas

desterrado o coração.

 

Não importa que chorosas

sejam, e mágoas emprestadas,

a correr aqui mansinho;

 

pois são dores tão saudosas,

que suas águas, por passadas,

inda movem este moinho.

 

(In Palimpsestos- uma história intertextual da Literatura Portuguesa. Santiago de Compostela, Edicións Laiovento, 1997,)