Pieter Bruegel, o Velho

(*1525-1530,Breda(?)-†05/09/1569, Bruxelas)

O pintor e o crítico, (suposto autorretrato)

Rezam os alfarrábios sacros que os sucessos narrados no Antigo Testamento ou Novo Testamento assumem a feição de correspondência alegórica em que uma ação ou pessoa ou acontecimento é símbolo ou figura profética de virtudes ou vícios de tempos vindouros. Todo acontecimento bíblico teria um sentido literal e um alegórico, uma significação histórica e outra mística, tratando-se, pois, de uma realidade em si e uma (pre)figuração.

 A luta entre católicos e protestantes à época de Bruegel, fê-lo figurar o desentendimento religioso com a Torre de Babel:

A construção da Torre de Babel, 1563

É comum na pintura de Bruegel a transposição de acontecimentos bíblicos para seu tempo e entorno, com um significado político:

Matança dos inocentes, 1566

A ordem de Herodes para matar os recém-nascidos em Belém transforma-se num protesto anti-hispânico, sugerido pelas lanças verticais, característica das tropas espanholas. O comandante da tropa, vestido de negro e longa barba branca, seria o Duque de Alba, enviado por Felipe II de Espanha para forçar a conversão dos protestantes dos países baixos ao Catolicismo.

Também não lhe passou despercebida a perseguição aos anabatistas, que defendiam a prática do batismo de adultos:

A prédica de São João Batista no batismo de Jesus, 1566

Proverbiais, as falhas humanas, 118 aí figuradas,

Provérbios, 1559

recrucificavam Cristo,

cuja cruz e ensinamentos mal se distinguiam,

 perdidos numa multidão de pecadores

.

Calvário, 1564

Carnaval e quaresma num mundo às avessas,

 

Carnaval e Quaresma, 1559

a desimportância das figuras sacras, reduzidas à pequenez e anonimato humanos,

Censo em Belém, 1566

dá bem a conta, paródica inversão, de que as divindades, ouçam lá o cochicho,

(cala-te, boca) e nasceram e foram criadas à nossa imagem e semelhança:

Adoração dos reis magos, 1564

Inválidos morais, a mendigar benesses divinas,

Os mendigos, 1568

nunca teremos a estatura e dimensão da divindade que nos teria criado.

Aos olhos de Bruegel, esse nosso mundo de misantropia (diz a legenda: “Por ser o mundo traidor, ando de luto”.)

Mundo traidor, 1568

e avareza desenfreada,

Dulle Griet, 1662

ah, esse nosso mundo parece um jogo dos sete erros em que já não distinguimos a caridade altruística

Os sete atos de caridade

da vaidade de posarmos como caridosos aos necessitados.

Cegos guiados por cego,

A queda dos cegos, 1568

não enxergamos que há uma ordem de cunho estoico a reger o cosmos: cada qual deve cumprir as tarefas que lhe cabem dentro da ordem do universo.

Anjos despenhados pelo orgulho,

A queda dos anjos rebeldes, 1562

 nossa hybris, ou seja, a afronta a essa ordem, como a arrogância, a desmesura de Ícaro que finge desconhecer nossa natureza de perdigão hão de ser punidos com a desatenção e desprezo da lei cósmica.

Paisagem com a queda de Ícaro, 1558

Seres minúsculos, passaremos sempre despercebidos. Inútil espernearmos nossa insignificância, náufragos na indiferença da natureza: