Gustave Caillebotte

(*19/8/1848, Paris – 21/2/1894,Genevilliers)

Autorretrato, 1892
 

1.

De 27 de março a 5 de julho de 2009, o Museu do Brooklyn (vale a pena visitá-lo),

a que se chega descendo na estação Eastern Parkway,

reapresentou Gustave Caillebotte

na exposição Paintings from Paris to the sea.

 

2.

Há duas propriedades que facilitam a vida de qualquer ser humano: talento e dinheiro. A falta de um, naturalmente, pode ser compensada pelo outro. Mas a ausência de ambos é de uma pobreza lastimável.

Esse nariz de cera sentencioso, com ares de Machado de Assis do Jornal das Famílias, só para lhes introduzir o rico e generoso talento de Caillebotte.

Autorretrato no cavalete

Filho da alta burguesia endinheirada, colecionou selos (coleção hoje no Museu Britânico), cultivou orquídeas. Gostando de remar e velejar, construiu ioles

Périssoires, 1877

Sculls on the Yerres, 1877

 e pequenos barcos a vela.

Sailboats on the Seine at Argenteuil

Mecenas do Impressionismo, Caillebotte

financiou exposições, subvencionou Monet, Renoir Pissarro e outros, comprando-lhes os quadros. Ao morrer, legou ao Estado francês 68 telas impressionistas adquiridas ao longo da vida: dezenove Pissarros; catorze Monets; dez Renoirs; nove Sisleys; sete Degas; cinco Cézannes; quatro Monets.

E pintou Paris

Rue de Paris, temps de pluie, 1877

sem a catarata impressionista, registrando-lhe o progresso,

Le Pont de L’Europe, 1876

acompanhando-lhe o boom imobiliário do alto de sua condição.

Um balcon, Boulevard Haussmann, 1880

No topo da pirâmide social, natural que perspectivasse as paisagens de cima para baixo.

Look down from sixth floor

Toits sous la neige, Paris, 1878

Compensação talvez de seu ócio aristocrático, deixou-nos duas telas cujo manifesto realismo é um hino ao trabalho dos que aplainaram os passos da burguesia triunfante naquela segunda metade do século XIX.

Les raboteurs de parquet, 1875

The floor scrapers

Suas telas passam a impressão de um homem discreto, sem ostentação, calado como um pescador, atento à vida que flui escondida sob superfícies remansosas.

Fishermen on the banks of Yerres, 1876

 Vejo-o com um despojamento caloroso, à imagem e semelhança de seu ateliê, onde nos chama a atenção o fogareiro.

Interieur d’atelier avec poêle, 1872-74

 

3.

Eloquentes discursos em torno da incomunicabilidade, os registros que fez de interiores

Femme a la fenêtre, 1880

Interior

 ou exteriores,

Portraits a la campagne, 1876

transformando-os em  espelhos da solidão e ensimesmamento dos seres que, mesmo juntos ou ligados por laços familiares, imergem no silêncio,

Les orangers, 1878

absortos e protegidos pelo escudo de suas tarefas ou leituras. Não vá escapar-lhes um gemido ou suspiro que lhes denuncie o que se passa no segredo de suas almas.

Observadora e atenta, a pintura de Caillebotte busca captar não a aparência exterior ─  mera fachada que reveste a superfície de seres e coisas.

The house painters, 1877

Ei-la convidando-nos a devassar as profundezas de uma realidade interior, sugerida seja na perspectiva diagonal, que, distanciando os seres, desvela-lhes o isolamento existencial, seja no simbolismo da enorme porta fechada que veda e esconde o que está por trás dela.

 

4.

Quatro telas de Caillebott chamam-me a atenção como registro de suas perplexidades de ser e estar no mundo.

A primeira, essa,

Jeune homme a sa fenêtre, 1876

é quadro a retratar a estabilidade financeira da alta burguesia francesa. Retas verticais e horizontais (no interior e no exterior) enquadram o domínio de quem contempla do alto a desejável tranquilidade de um bairro moderno (Ave, Cesário Verde!) cujos prédios (brancos e geométricos) representam as desejadas clarté e convenance da burguesia entronada no poder.

Temos, contudo, um homem bipartido. De preto (luto?) e de costas (recusa?) para os cômodos e comodidades de seu apartamento, na Rue Miromesnil, 77.

Veja-se-lhe a metade, cinza e sombria, refletida na vidraça.

O que o dilacera e mutila?

 

A segunda tela, datada de 1876, semelha a um necrológio,

Le déjeuner, 1876

registrando o luto e pesar de sua família.

 Martial Caillebotte, o pai, já falecido há dois anos. René, quarto e último filho, morto nesse 1876, aos 25 anos. À mesa, Caillebotte põe Martial, outro irmão, com traços fisionômicos que lembram René. Em torno da vasta mesa negra, ausências implícitas, tácitas. O espectador...

somos convidados a ocupar o lugar do chefe da família, defronte da viúva.

As coisas, inanimadas, assumem importância desproporcional em relação aos vivos ─ mudos, rostos sombrios. A dor, o peso dos objetos, a atmosfera sufocante. Só os cristais,

com estridente clareza, iluminam a cena, gritando quão frágil é a natureza humana.

 Tela solene e fúnebre ─ natureza morta em seu pleno sentido.

 

A terceira tela:

Portrait de Madame X, 1878

Trata-se, de fato, do retrato de um enigma.

Quem se mira em quem nesse jogo de espelhos? É o espectador ou um alter ego de Caillebotte esse homem que se reflete na mirada fixa da mulher?

E ela, quem é?

Uma viúva a rever no espelho saudoso o retrato do marido? Do filho morto?

Um ou outro anteriormente eternizado na transfixação melancólica de um quadro à parede?

 

Portrait of a man

O retrato de Madame X é o retrato de um enigma que, esfíngico, nos devora. Enquanto nos decifra?

 

A quarta tela, não sei o porquê, vejo-a como expressão do rumo de sua vida e obra:

Le Père Magloire, 1884 

O céu, querendo te arrebatar e te possuir,

se reflete no casaco.

Mas teus braços, presos às costas, são asas

que se recusam ao voo.

 

Pés na terra,

dando as costas a tudo,

caminhas, Caillebotte, sereno,

à sombra do outro.

 

Sabes a que destino chegar.

 

O vazio à frente

é simplesmente o espaço

preenchido por tua (nossa?) solidão.

 

5.

Nunca se casou, mas parece ter tido um sério relacionamento com Charlotte Berthier,

Luncheon of the boating party, Renoir

companheira de animadas festas.

Línguas de trapo dizem que de baixa condição social e onze anos mais nova que ele.

Amante discreto, nunca a retratou.

Charlotte Berthier, Renoir, 1883

Talvez a trouxesse gravada na retina. Era só fechar os olhos para vê-la e velá-la.

Deixou-lhe em testamento polpuda pensão anual. Nunca viesse a faltar ração balanceada para tão querido pet.