Canaletto II

 

1.

Chego de trem

Estação Santa Lucia

ao coração de Veneza


para conferir, ao vivo e em cores, os postais turísticos que Giovanni Antonio Canal

(*28/10/1697, Veneza ─ †19/4/1768, Veneza),

vulgo Canaletto,

gravou na memória de minha retina. Quero ver a distância que separa a Realidade da Arte.

Gosto de Canaletto,

porque, com seu olho fotográfico de lambe-lambe rococó, sendo um vedutisti (ou seja, pintor de paisagens ou vistas), pintou Veneza com capricho de luzes e cores dignos da propaganda de agência turística em dez vezes sem juros.

2.

Verdade que a pintura de Canaletto acaba sendo repetitiva no afã de captar sua Veneza por todos os ângulos e perspectivas,

Grande Canal visto do sul, Canaletto

 

Grande Canal visto do leste do Campo de San Vio, Canaletto

buscando desvendar-lhe segredos que concebe inacessíveis aos nossos olhos de turistas,

Gande Canal visto do Palácio Oflangini, Canaletto

preocupados em protagonizar selfies narcisistas com a paisagem veneziana em coadjuvante plano, muito ali ao fundo.

Grande Canal visto do norte, Canaletto 

3.

Depois de me perder pelas ruelas estreitas e labirínticas,

uma ragazza, azul transbordante na piscina dos olhos, jurou, beijando os indicadores cruzados, que nessa rua nascera Canaletto. 

Quale casa?

Deixou como resposta o molhado rastro azul de seus olhos.

Interpelei mais dois paisanos

Dove? Qui vicino?

Dove? Laggiù?

Talvez não entendessem meu italiano macarrônico.

Como não encontrei a placa lhe garantindo o berço,

sem estômago para tanta desinformação, minha fome escolheu o Hotel e Restaurante como a manjedoura de seu nascimento.

Meu repasto?

Um Campari e uma pizza romana em homenagem ao esquecimento de onde nasceu Canaletto ─ ele, sim, um patrimônio mundial de nossa humanidade perdida.  

4.

Veneza é uma gôndola ancorada à beira de seus 117 canais e à sombra de suas 409 pontes.

Quem vai a Roma, é possível que veja o Papa emoldurado numa janela; quem vai a Veneza indefectivelmente se mete num vaporetto

ou numa gôndola garrida.

─ Vamos lá, senhoras e senhores. Meu nome é Giuseppe Canallino, vosso guia ao inteiro dispor, inclusive com romântica gôndola para passeios noturnos sob luas-de-mel tão cheias como fecundo útero.

Nesse tour, conheceremos a Veneza que Canaletto, de nome Giovanni Antonio Canal, pintou para nosso encantamento.

Antes de qualquer coisa, pasmem diante da Praça de São Marcos,

    

                                                                         mas não alimentem os pombos.

A caca desses ditos símbolos da paz leva a doenças que causam cegueira, infecções no cérebro, pulmões e intestinos. Em suma, uma grande merda.

Para compensar, naveguemos pelo Grande Canal... em direção à Igreja da Saúde. Teremos tempo para rezar pela nossa e alheia.

Anônimo espectador na sacada do Palácio do Dodge,

Interior do palácio do Dodge, Canaletto

tenha uma visão privilegiada do dolce far niente na Praça São Marcos.

Ou vá pachorrentamente à beira do Grande Canal e testemunhe a chegada do embaixador francês.

(Qual é mesmo o nome do distinto? Diante desse teatral e carnavalesco espetáculo,

Carnaval, Canaletto

importa saber o nome de quem jeito e feição, aliás, mal distinguimos daqui?)

Veja-se você bem ali no camarote VIP do bucentauro diante do palácio ducal. E bem no dia da elevação de todo e qualquer espírito. Mesmo aqueles mais caidaços.

Retorno do bucentauro no dia da Ascensão, Canaletto

 (Aqui entre nós, a Colombina ali

 te confundiu com o priápico Casanova.

Giacomo Casanova, Anton Raphael Mengs, 1760

Vai fundo, cara. Antes de morrer romanticamente suspirando,

A Ponte dos Suspiros, Canaletto

só vê se não é algum traveco.)

 

Vamos e venhamos: persuasivo guia turístico esse redivivo Polichinelo com seu humor de ópera-bufa.

5.

Iniciado pelo pai (Bernardo Canal) nas artes e manhas cenográficas, as personagens venezianas de Canaletto têm vida. A multidão que ele apinha no espaço de praças e canais, está

Campo di Rialto, Canaletto

a exercer o papel social nosso de cada dia.

Riva del Schiavoni, Canaletto

 Personas a povoar o cenário dessa grande Commedia dell’ Arte, que é a vida.

Campo de Santo Angelo, Canaletto

6.

Além de ser precursor do Impressionismo, pintando ao ar livre para captar as variações de luz e cor das marinhas venezianas, 

                                                                            Canaletto deu asas a capriccios:

Capriccio of a church, Canalleto

Capriccio: ruínas e construções clássicas, Canalleto

─ entenda-se, fantasias arquitetônicas combinando vestígios arqueológicos e ruínas (como se compraz a UNESCO), num amálgama de elementos reais e imaginários.

Finda minha viagem a confrontar Arte e Realidade, fico a me perguntar se a Veneza pintada por Canaletto

Vista da entrada para o Arsenal, Canaletto

não é toda ela um capriccio de sua imaginação:

Capriccio: the horses of San Marco in the piazzetta, Canaletto

Capriccio do Grande Canal com imaginária Ponte Rialto, Canaletto

No fundo, veduta (vista, perspectiva) ideal e poética, a compensar uma realidade insatisfatória. Inabitável com seus odores e desconfortos. Pelo menos para meu espírito comodista.

 Ainda mais quando Veneza parece um bucentauro

Bucentauro, Canaletto

a fazer água, adernando.

Naufragando lentamente com meu sonho de turista basbaque.