Michelangelo Merisi, vulgo Caravaggio

(*Caravaggio, 29/9/1571 ? – † Roma, 1610)

Aberta a burra significativa do Dicionário, descobre-se o Ser Vulgo:

a) [do lat. Vulgu] S.m. 1. O povo, a  plebe. 2. O comum dos homens, a pluralidade das pessoas;

b) [do lat. Vulgo] Adv. Na língua vulgar, vulgarmente.

Agora sabedor dos vulgares segredos da Língua, o mais adequado subtítulo deverá ser:

 

Michelangelo Merisi, caravaggio Vulgo

Minhas razões do Ser-Michelangelo-Merisi  assim nomeado?

Fiel às suas crença e natureza, depôs as alturas celestiais do Barroco no rés do chão de becos e vielas cujo tenebrismo era expressão de sua sombra.

Marginal, iconoclasta, recusou-se a seguir o catecismo pictórico da Igreja, mesmo quando pintava motivos sacros.

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Nessas telas, Michelangelo caravaggio Vulgo espelha a Virgem Maria à imagem e semelhança da pecadora Madalena, ao retratá-las na forma e figura de Ana Bianchini --- uma jovem prostituta de suas relações: modelo iconográfico de suas transgressões pictóricas.

 

De Sodoma e Gomorra

Velázquez aprendeu com Caravaggio a lição iconoclasta de pôr hacia abajo o Céu e o Olimpo. Só que o fez com o decoro apropriado à sua condição de pintor áulico da corte hispânica. Já nosso Michelangelo caravaggio Vulgo pôs abaixo as deidades prostituindo-as nos modelos oferecidos e achados pelas tabernas e lupanares.

Caravaggio sempre deu bandeira, desfraldando o arco-íris homoerótico de sua paleta.

E isso numa época castradora: a das beatas lições da contrarreforma tridentina.

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O Santo Ofício, mil olhos ciclópicos, não haveria de perdoá-lo. E olha que a Santa Madre Igreja, alardeando sua misericórdia acolhedora, procurou cooptá-lo, trazê-lo ao abrigo do seio de Deus com tentadoras encomendas de edificantes temas religiosos.

“Ah se ele, peregrinando rumo à santidade, tal qual Madalena arrependida, fugisse da Sodoma e Gomorra que também foi sua vida...”  --- assim deveria rezar, misericordiosa, a Santa Madre Superiora Igreja.

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O problema é que o céu para Caravaggio se espelhava, narcísico,  na terra.

Sua Nossa Senhora do Loreto encarnava a beleza grega de Lena (Madalena Antognetti), célebre cortesã romana. Ambientadas no caos de uma rua napolitana, suas sete obras de misericórdia cifram-se, na verdade, numa solidão autista, alardeando quão intransitivos e onanistas acabam por ser os atos caridosos...

Pecado nefando? Cala-te, boca!

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Segundo Vergílio, Amor omnia vincit, et nos cedamus amori.

Se assim é, se o amor tudo vence, rendamo-nos ao Amor. E entendamos que, às vésperas de sua misteriosa morte (doença?, assassinato?), Caravaggio, vulgo Golias, se autorretrate às mãos de seu amante Mario Minniti, vulgo  Davi.

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Afinal, ele viveu perdendo a cabeça por efebos. 

 

Narcisos

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Abisma a imagem da tela Narciso.

Caravaggio concebeu-a dividida por uma linha horizontal que enquadra em dois retângulos a duplicidade esquizofrênica do Ser narcísico.

Reflexo imerso no que contemplo, eis que me revejo a segredar-me-lhe:

        Narciso,  II

Eis já não sou teu rosto,

mas fonte onde se debruça

tua íris vazia que aguça

o que fui de ti deposto.

 

É vão buscar na memória

- água turva que ora sou -

feição, veia ou história

do ser que em ti habitou.

 

Posto entre a superfície

que finjo e o mirar

com que me bebes aflito,

 

Narciso traz a calvície

e o sol-posto dos mitos

nas rugas de meu olhar.

 

 

P.S.: Ver a propósito de Caravaggio:

O Sagrado e o Profano: 400 anos sem Caravaggio,

Flavio Botton.