Para você,  Flavia.

Nesta data, querida,

teu nascimento foi anúncio de meu renascimento.

           

O dom de ser casmurro, I

1. De capitosas capitus

Em matéria de sorrisos dissimulados e olhares oblíquos, Mona Lisa, de Da Vinci,

 

e La Bohémiene, de Franz Hals,

 

 me fazem pensar que Machado [Casmurro] de Assis bem poderia tê-las por modelo ao retratar Capitu. Chego até a perceber, nas fisionomias e poses, marcas da evolução social que levou a moleca suburbana à situação de distinta madame, esposa de bem sucedido causídico.

Não, senhores e senhoras, não houve traição, nem engano. Bentinho é que não soube ver e tampouco interpretar o que inscrito estava no DNA fisionômico.

Também pudera. Afinal, verdade assente, quem vê cara, não vê coração.

O dela (estava na cara?) batia com o de Escobar.            

 

 

2. Finalmente, o soneto

A minha leitora aí tão voraz e inteligente e poliglota, sem dúvida, leu D. Casmurro.

Isso mesmo. A obra daquele genial mulato carioca, cujo gênio britânico faz sombra ao Othelo. Logo, há de lembrar-se do capítulo LV, intitulado “Um soneto”. Soneto que o seminarista Bentinho, insone, a dar trato às espinhas, deixou inacabado, sem conseguir atar as duas pontas dos versos que deixou soltos. O primeiro, “Oh! flor do céu oh! flor cândida e pura!”; e o último, “Ganha-se a vida, perde-se a batalha”.

Dado o mote, um desafio atar-lhe as duas pontas da vida, fazendo-lhe o favor de preencher o espaço de doze versos que, tácitos, bem  poderiam não “restaurar na velhice a adolescência” (como ele desejava no capítulo II), mas restaurar-lhe a velhice de sua adolescência.

A moça aí, repousando os olhos na distância do sonho, concorda que tempo não vivido é tempo perdido?

Que me perdoe o causídico Casmurro, mas não resisto à tentação de meter a colher em briga de marido e mulher:

 

Soneto casmurro

“Oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!”

Assim outrora, ingênuo, suspirei.

Tempo em que não tinha essa catadura

de D. Casmurro em que me criei.

 

Virtude, poesia ou religião

bem que seriam a “flor cândida e pura”.

(De Capitu a dissimulação

vertida em metafórica cesura?)

 

Em meu duplo ser, Iago trabalha

para fazer-me vítima de Otelo:

negro ciúme de que, vivo, mouro.

 

Seminarista e rábula, o libelo

é minha ressaca, o teu desdouro.

Perdeste a vida. Foi ganha a batalha?