O dom de ser casmurro, III

 

O superlativo José, a dias

ou

    o ABC da traição

 

Lembra-se a minha gentil leitora do Sr. José Dias, o agregado do pai, da mãe, enfim, da casa do Bentinho, de quem foi pajem fiel? O José, a dias em seus prestativos serviços?

Se lembra, folgo. Pois aqui vai seu fidelíssimo depoimento, verdadeiro bê-a-bá da traição, nesse libelo casmurro que nosso causídico gaguinho montou contra a senhora sua legítima esposa, a capitosa Capitu:

 

Estava ali bem na cara

do menino a traição.

Só quem distraído fosse

ou privado da visão

não veria a evidência:

justíssima acusação!

 

 

“Olha que dissimulada,

de ressaca os olhinhos,

matreira como cigana,

cobra a cocar passarinho,

tome tento, queridíssimo!”

Bem que avisei a Bentinho.

 

 

 

Ouvidos de mercador,

deu atenção a ninguém.

Finória a Capitu,

toda prosa, nhém-nhém-nhém.

Só queria subir na vida,

afinal filha de quem?

 

De um tal Pádua, rastaqüera,

feliz por ser interino.

A filha, não. Titular

em seu furor uterino,

ela queria ser rainha

dum coração de menino.

 

Ferrão de abelha-rainha,

Capitu há de matar

Casmurro ou zangão.

Morre o comborço no mar

tragado pela ressaca.

Só sobra Bento, a cismar.

 

Mais parece ela a viúva,

tanta a dor em Capitu.

Quem vê tais derramamentos

não por mim, dize-me tu,

por quem haveria de ser?

TPM? Calundu?

 

 

Meu leitor inocentíssimo,

no espelho, espelho meu

da vaidade mundana,

quem não se revê nos seus,

foto cuspida, escarrada,

ou é parvo ou é sandeu.

 

Ezequiel era o nome

do rebento que nasceu.

Tão viva prova do crime,

logo a todos pareceu.

Saiu com a cara do pai,

quem logo não percebeu?

 

Só que o pai era bem outro,

caso para se lamentar.

Na figurinha, a estampa,

não de Bento, de Escobar.

Aquele fruto ilegítimo

quem haveria de negar.

 

A cada dia que passava

mais se apurava a feição

do filho co’a de Escobar.

Bem patente a traição,

não havia quem duvidasse

que houvera enganação.

 

Diante daquela evidência,

conclusão de tal premissa,

Capitu não soltou pio,

nem tampouco veio à liça.

Aceitou o purgatório

e foi morrer na Suíça.

 

Desse caso soleníssimo,

vergonhosíssimo, inglório,

de que foi vítima o Bento [1]

amicíssimo e simplório,

isso digo, assino embaixo,

firma reconhecida em cartório.


 

[1] Já disse o Padre Vieira que se muda o sentido de um texto, mudado um ponto ou vírgula. Pois bem.  Naquele ponto, lá em cima, depois de “Bento”, um verme guloso roeu a pontuação. Não sei se ali um ponto ou vírgula. Caso de ponderação. Se ali uma vírgula, tem-se um sentido; se um ponto, tudo muda de figura. Como dizem que uma obra só ganha sentido com a interação do leitor, ponha lá a pontuação que lhe convier ou aprouver. Maneira também de meter a colher nessa briga de marido e mulher.