1. Trompe-l’oeil

Parafraseio Octavio Paz (em Los Privilégios de la Vista), dizendo que ver é um privilégio. E acrescento, por minha conta, que enxergar o que não se vê é um privilégio ainda maior. Capaz de dar-nos a sensação de superpoderes, de visão raio-X, apta a enxergar sob esse quadro de Ziraldo (Capitão América contemplando tela de seu compatrício Lichtenstein)

o modelo que, oculto, na verdade o inspirou --- The Connoiseur, de Norman Rockwell (1962):

Merleau-Ponty, em L’Oeil et L’Esprit, diz que a pintura (com suas linhas, cores e volumes) celebra o enigma da visibilidade.

Lembrei-me de ambos, de Octavio Paz e de Merleau-Ponty, em razão do que venho fazendo nessas minhas Pinceladas sobre a Pintura Alheia. Já disse (recordam-se?) que não entendo de pintura. Nem quero entender. Minha experiência acadêmica ensinou-me que a sabedoria bibliográfica embota os sentidos e a sensibilidade, além de cegar a alma. Quero simples Trompe-l’oeil.

      

2. Mudas Musas

Esfíngica, a enganosa visibilidade do real também nos desafia com seus enigmas. Que o digam os poetas que, handicapped, até inventaram o socorro das Musas, invocadas como guias ou muletas

Inválidos, Bruegel, 1568

nessa travessia que percorre o túnel da palavra (essa caverna platônica) em busca da luz que lhe deflagre a verdadeira realidade.

Resta-lhes o desconsolo de saber que os tempos mudam. E as musas, além de  madrastas  nada amigáveis,

O corpo tem mais cotovelos, Paulo Rego, 1995.

podem ser também, maternalmente,  mudas.

O poeta e sua musa, De Chirico, 1925, Philadelphia Museum of Art.

Afinal, quem se alimenta de quem? É o poeta que devora as musas, para canibalescamente incorporar-lhe o espírito e eloquência? Ou são as Musas que, mais vampiras

Entre mulheres, Paula Rego, 1997.

que vamps,

Helena Flogue, Klimt

sugam-lhe a alma, para nela e nele viver eternamente?

         Moral dessa história de poetas com musas em demanda da Realidade?

É a que se lê na Parábola dos Cegos, de Bruegel:

A queda dos cegos, Bruegel, 1568

Mais cego é quem se deixa guiar por cego.

 

 

3. Mi(n)tologias, II

(Bem podia estar estampado num cordel, vendido por um ceguinho de feira.)

 

No coice da poesia,

de Pégaso ter as asas,

a bênção das nove Musas,

sua constante companhia.

 

  Minerva e as nove musas, Hendrick Van Balen.

 

 

Em demanda do oculto

inscrito nas aparências,

exumar o que, sepulto,

priva-nos de sua essência.

 

 

Vislumbrar então nos signos

(essa caverna platônica)

o sentido fidedigno

de nossa visão daltônica.

 

 

Ler na língua de Babel

os exílios de Sião,

interpretar o papel

que nos dá a ilusão.

 

A construção da Torre de Babel, Bruegel, 1563.

 

 

O Sol, de brilho ofuscante,

(luz que nunca se atinge)

parece a voraz esfinge

de meu Édipo farsante.

 

Derretendo bem asinha,

cera a cera, pena a pena,

o voo de quem se avizinha

da Realidade plena,

 

Ícaro, Matisse, 1946.

 

 

--- nega-se, assim, o Real

a ser aqui decifrado.

Cabe-me ser tal e qual

um Ícaro despenhado

 

A queda de Ícaro, Bruegel, 1563.