1. Calçadão

À Baudelaire,

 talvez com um caderninho que a moda francesa batizou de phisiologie, Cesário Verde (*Lisboa, 25/2/1855 – † Lisboa, 18/7/1886) flanava por sua Lisboa. Com os cinco sentidos alerta, fosse ao sol do Verão, lá pelas dez, fosse ao entardecer, lá pelas Ave-Marias, fosse ao anoitecer, sob o gás bruxuleante, Cesário tentava, à Caeiro, captar-lhe tipos, modus vivendi, atmosferas, cores, olores e odores.

É por essa óptica pedestre que, em “Cristalizações”, o flâneur Cesário flagrou os calceteiros, esfalfando-se exatamente na tarefa de facilitar-lhe o passeio vagabundo, ao calçar “de lado a lado a longa rua”. Lendo a quintilha

“Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,

cuja coluna nunca se endireita,

partem penedos: cruzam-se estilhaços.

Pesam enormemente os grossos maços,

com que outros batem a calçada feita.”

 estou a ver Os britadores de pedra (1849),

de Gustave Courbet (1819-1877), cujo engajamento politicamente simpático aos trabalhadores também repercute e retine nos versos de Cesário.

(Ou mais chic e parisiense seria ver os versos de Cesário flanando pela Rue Mosnier, de Édouard Manet ?)

 

 

 

2. Janela indiscreta

Em “Contrariedades”, sob máscara quase autobiográfica,

 ouvimos o eu-lírico de um Poeta que, sem igrejinha nem acólitos que lhe incensem a obra, desabafa a raiva e o rancor por não ter o talento reconhecido e aclamado. Contudo, desgraça e dor maiores que a vaidade ferida lhe enquadra a visão indiscreta de sua janela-voyeur:

            “Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;

sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes

          e engoma para fora.”

Esses versos põem-me cara a cara com tela de Degas,

(“Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha.”),

 cuj’A Engomadeira (1869) me fita, espantada, por ver invadida sua privacidade: 

--- Miserável!

Quem? Eu?