Cesário & Cia, II

 

1. Natureza viva

“Num bairro moderno”, o comerciante-agricultor Cesário Verde, na persona de amanuense (que não Belmiro), dirige-se, lá pelas dez da manhã, sem muita pressa ao tédio asfixiante de sua repartição (pública?). Ofegante, confessa que o Verão tem-no feito chegar quase sempre “com as tonturas de uma apoplexia” ao emprego. (Cujo salário, vamos e venhamos, não há de valer o que lhe custa a Vida.)

Enquanto flana, vai registrando, com pinceladas de vívido colorista, quadros da vida cotidiana.

A que palpita, enfartada, no interior de residências

(“Como é saudável ter o seu conchego,/E a sua vida fácil!”),

cujas paredes --- epiderme de papel que simula flores e ramagens --- sonham com o mito do paraíso perdido lá longe, no Campo: esse nosso sonho diuturno de pequenos-burgueses desterrados da Felicidade.

Ou a vida que, nostálgica também, pulsa ao longo da rua gorgeante de pássaros e sabendo ao olor do trigo feito pão.

Então, de repente, não mais que de repente, meu caro Vinícius, eis que o destrambelho da visão desse amanuense-Cesário-Verde  flagra uma rapariga de costas, --- “rota, pequenina, azafamada”---, vendendo frutas e verduras numa giga (traduza-se em nome da lusofonia: num cesto), pousada “no xadrez marmóreo duma escada,/como o retalho de horta aglomerada”.

O quadro pintado pelo amanuense-Cesário-Verde nem de longe se parece com a natureza morta de Caravaggio, pousada lá em cima.

Entendam-se lá os sentidos e o sentimento desse ocidental decadente como o entardecer! Cuja sensibilidade nevrótica de flâneur intoxicado por modas parisienses e baudelairianas; cuja alma, persona carente do paraíso artificial de domingueiras compensações ecológicas e arcádicas; enfim, cujas alma e sensibilidade, paletas de singular artista em busca da luz do Sol que as oriente e as faça renascer, --- não é que a sensibilidade, alma e sentimento desse ocidental transformam a natureza morta dos frutos e vegetais num ser humano vivíssimo nas formas e cores, quase diria sabores: 

“Subitamente --- que visão de artista! ---

se eu transformasse os simples vegetais,

à luz do Sol, o intenso colorista,

num ser humano que se mova e exista

cheio de belas proporções carnais?!

(Vertumnus, cerca de 1590)

 

E eu recompunha, por anatomia,

Um novo corpo orgânico, aos bocados.

Achava os tons e as formas. Descobria

Uma cabeça numa melancia,

E nuns repolhos seios injetados.

(Flora, 1591)

 

As azeitonas, que nos dão o azeite,

Negras e unidas, entre verdes folhos,

São tranças dum cabelo que se ajeite;

E os nabos --- ossos nus, da cor do leite,

E os cachos de uva --- os rosários de olhos.

(Outono, 1573)

 

Há colos, ombros, bocas, um semblante

Nas posições de certos frutos. E entre

As hortaliças, túmido, flagrante,

Como dalguém que tudo aquilo jante,

Surge um melão, que me lembrou um ventre.

(Primavera, 1573)

 

E como um feto, enfim,que se dilate,

Vi nos legumes carnes tentadoras,

Sangue na ginja vívida, escarlate,

Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.”

(Verão, 1573)

 

Se Giuseppe Arcimboldo não tivesse nascido e morrido em Milão, no século XVI (1527-1593), diria que Cesário (que te quero Verde como hortaliças, mas maduro nos frutos artísticos que deixaste), eu diria que o poema “Num bairro moderno” (cesáreo parto do extemporâneo) dera o mote, forma e cores para os quadros do pintor milanês.

       Se Cesário Verde conhecia a pintura de Arcimboldo?

Cesário Verde era, na visão do Fernando Pessoa(s) cognominado Caeiro, um “camponês que andava preso em liberdade pela cidade”. E também comerciante (diga-se) com vocação de poeta. Giuseppe Arcimboldo foi pintor. (Não lhes parece que com vocação de agricultor e feirante?) Que frutos colher disso?

       Eis aí, mestrandos(as) e doutorandos(as), sherlockiano tema interdisciplinar para dissertações e teses. Ainda mais considerando as interfaces sugeridas nesse fecundo diálogo entre signos, chamado de transposição intersemiótica. (Chic, né?) Só peço que seja dado o devido crédito, no texto introdutório e na bibliografia, à ideia colhida nessas despretensiosas Pinceladas sobre a pintura alheia.

 

 

2. Interface dialógica

Como soa falsa a sem-vergonha da Modéstia!

Ora, a Modéstia é a Vaidade em seus trajes menores.

                            (Nana, Édouard Manet, 1877)

  O cavalheiro aí não acha?