Charlie Hebdo

7/1/2015

Estava posto em sossego, em gozo de merecidas férias, lambendo a cria Os Caprichos de Goya, quando fui atingido pelo impacto da bestialidade humana e do obscurantismo religioso. Duas bestas-feras, (supostas bestas-feras, diria o politicamente correto)

em nome duma guerra santa,

invadem a redação do semanário Charlie Hebdo, na Rue Nicolas-Appert, 10,

e metralham doze pessoas, matando, dentre elas, crème du crime,

Georges Wolinski, Jean Cabut, Stèphane Charbonnier (Charb), Tignous (Bernanrd Verlhac).

O humor, feito a óleo e fogo,

carbonário em essência (ou Charbonnier não seria Charb), inferno de nossos pecados dantescos, não pode ajoelhar-se ante a imbecilidade do politicamente correto, não importa a cor, ideologia ou credo

sob que se disfarce a mordaça censória, cerceando a liberdade de expressão.

O humor não pode ser sectário.

Nada pode ser intocável

à charge de seu ataque corretor e zombeteiro.

O azorrague da sátira deve punir-nos, se não morrermos de rir ao descobrir o ridículo de nossa pequenez, erros e preconceitos.

Engana-se quem pensa que o humor é subversivo. Simplesmente é contra o status quo

do obscurantismo, da imbecilidade, da cegueira humana, servindo-nos a estultícia que, irmanados, comungamos.

 O humor, por mais corrosivo que seja, defende uma Norma Ideal, sob a qual todos desejamos viver.

O ataque à redação do Charlie Hebdo foi um crime contra os princípios do Islamismo. Só os fundamentalistas de qualquer 

credo não percebem.

Para a irreverência do humor nada pode ser sagrado ou

ou tabu.

Mesmo nossas melhores intenções devem ser desnudadas em seu ridículo.

Posso achar excessiva a raivosa e iconoclasta agressividade de algumas charges de Charlie Hebdo,

mas, à Voltaire, lutarei sempre pelo direito de publicá-las.

Testamento premonitório a charge deixada por Charbonnier

 

nesse janeiro de trevas e luto.

 

8/1/2015

Ironia do Destino: barricados numa gráfica com um refém, os jihadistas responsáveis pelo ataque à redação de Charlie Hebdo 

 

foram mortos.

Ante o epílogo, dirão os politicamente corretos que não houve respeito aos sacrossantos direitos humanos desses jovens da periferia, Chérif e Said Kouachi, criados num orfanato, carentes, impelidos ao terrorismo pela falta de oportunidades econômico-sociais...

 

11/1/2015

Je pense librement. Donc je suis Charlie Hebdo.

─ é o cartaz que levaria sobre um fundo negro, irmanado ao luto e protesto da anônima multidão

contra o radicalismo da bestialidade humana, não importa sob que cor, credo ou ideologia se embuce.

 

14/1/2015

Com oito páginas, três milhões de exemplares, traduzido em dezesseis idiomas,

Charlie Hebdo está de volta, com capa de Luz (Renald Luzier),

que escapou ao atentado por chegar atrasado à redação.

Nada matará a liberdade de expressão,

pois a charge sobreviverá e continuará a ser uma poderosa arma contra a barbárie obscurantista e a imbecilidade humana.

Francisco Olea