Giorgio de Chirico

(*Tessália, 10/7/1888– † Roma, 20/11/1978)

1. Pittura Metafisica

Gosto da fase inicial de Giorgio de Chirico, a que vai de 1910 a 1920 --- sua pittura metafisica. (Autorretrato, 1920)

 

Sob o autorretrato, em pose melancólica à imagem e semelhança de seu tutor, (Retrato fotográfico de Nietzsche, 1882)

 

o mote de sua pintura metafísica: “E o que hei de amar senão o enigma?”  (Autorretrato, 1911)

O amado enigma (leia-se a plaquinha que nos mostra) repousa na essência metafísica das coisas.

Por metafísica entenda-se o lado desconhecido da realidade. Na lição de Nietzsche, o enigma metafísico não se instala noutra dimensão, mas no interior, sob ou por trás das coisas visíveis e materiais.

 

O Enigma do Oráculo, 1910, O Enigma da Hora, 1910/11.

A realidade visível, material --- um labirinto de sombras só percorrido pelo fio de Ariadne, que, ainda segundo Nietzsche, representa o princípio feminino da arte com seu conhecimento intuitivo.

Ariadne, 1913

Ver e decifrar o enigma metafísico da realidade é ser nossa alma despertada por Dionísio, cuja embriaguez dos sentidos destrambelhados é capaz de percorrer, fio a fio, o labirinto sombrio rumo à luz da “revelação”.

 

 

2. Fazendo praça do Vazio e das Trevas

Enigma de um Dia (I), 1914, (MOMA).

O que nosso falacioso sentido apreende da exterioridade visível é a amplidão de um vazio coagulado que petrifica nosso espanto indagador ante um baú que, esperamos, venha abrir-se com as respostas desejadas.

Solidão (Melancolia), 1912. Recompensa do Adivinho, 1913.

As sombras, notem as sombras, aparentemente projetadas pela realidade visível têm vida própria. Enganadoras, não emanam de qualquer fonte de luz evidente. Opacidade do real visível e enganador, essas sombras são a visão de nossa incapacidade de ver, de enxergar a verdade metafísica --- o outro lado, a outra dimensão da realidade.

 

 

3. Cega vaidade

Retrato de Guillaume Apollinaire, 1914.

Enfim, com sua pintura metafísica, De Chirico, esse Tirésias de rayban, cria-se o mensageiro que anuncia uma nova visão do mundo, revelando o invisível para nós, os comuns dos mortais.

O sonho de Tobias, 1917-1922.

A exemplo do Tobias bíblico, De Chirico queria pôr um fígado de peixe (sua pintura) em nossos olhos para curar-nos da cegueira e fazer-nos ver o invisível: AIDEL (saiba nossa ignorância) em grego.

Essa tarefa de guia da cega e ignorante humanidade deve ter-lhe subido à cabeça, (Autorretrato com paleta, 1924)

conforme se lê na legenda latina: “A fama eterna é-me concedida para que eu seja glorificado sempre e em toda a parte”.

Esquecido de que o Tempo, esse sim Pai Eterno, não admite a concorrência da vaidade filial.

Saturno devorando um filho, Goya, 1819-1823.

            De cambulhada foi-se também, devorada por Saturno, minha admiração por De Chirico.

 

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