Dali, o salvador(*Figueras, 11/5/1904 – † Figueras, 23/1/1989)
Confessava que toda manhã, ao despertar, experimentava o prazer supremo de ser Salvador Dali. Natural considerar ter vindo ao mundo, como o próprio nome indicava, para, sob a adoração e incenso de sua Madona de Port Lligat, 

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  ser o salvador da pintura moderna.

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É essa (re)visão do cubismo levado às últimas consequências da hiperrealidade geométrica, que me leva a concordar com Ingres que “o desenho é a probidade da arte”. Com base no desenho, nossa percepção visual não tem como se enganar: o pintor ou é bom ou não é.

Dali e o circo
No picadeiro circense que foi sua vida, Salvador Dali sempre deu espetáculo, sim senhor: palhaço, funâmbulo e mágico.
Palhaço o que é?
Ladrão de mulher. 
Assim sendo, de Paul Eluard 

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roubou Helena Devulina Diakonoff (Gala, para os mais íntimos).
Palhaço, fez-nos também rir com atitudes e blagues cuja seriedade crítica só não entende quem pensa que a derrisão do riso não passa de piada. Apresentar-se vestido de mergulhador para uma conferência na chuvosa Londres, vamos e venhamos, é mais precavido do que abrigar-se sob a inutilidade do indefectível guarda-chuva inglês. Proclamar “O Surrealismo sou eu!” foi dar corpo e personalidade e longa vida a uma estética fadada a eclipsar-se na fogueira da vaidade de egos e talentos anões.

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Funâmbulo, foi capaz de desequilibrar, na corda bamba da percepção, o real (inteligível?) e o irreal (sensível?), convencendo-nos que de que o Surrealismo é a expressão máxima de uma realidade cujo verismo repousa na retina libertariamente sonhadora de nosso inconsciente, dominado por incestuosas tentações que, íncubas e súcubas, até Freud é reticente, ao explicá-las:
--- Seu reprimido fetiche, meu caro, pelas espáduas... e pela bun... quer dizer... pelas nádegas... de sua irmã... a Ana Maria... é um caso sério, sério pra chuchu...


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Mágico da pintura, foi um ilusionista cheio de truques. Capaz de tirar da cartola coelhinhas dignas da Playboy 

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e wet dream de qualquer cisne metamorfoseado em fálico Júpiter ao alcance da mão cariciosa de Gala...

Avida Dollars
Com a inveja natural aos incompetentes, André Breton cifrou no anagrama Avida Dollars a ganância de Salvador Dali, desvalorizando-lhe, por mercenária, a arte. Cujos produtos nossa já conhecida Gala saía a vender de porta em porta.

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Como Breton desnudaria Gala nessa imagem ambígua?
a) Musa tão ávida de dollars que não se importaria em tornar-se efígie de míseros cinco dólares? 
b) Mulher tão ávida de dollars que não se importaria em dar-se por míseros cinco dólares?

 Macho e fêmea os criou

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Neoclássico, cultor do estudo e imitação dos bons autores, Dali esmerava-se em pinceladas sobre a pintura alheia. 
Eis como ele relê a mulher que, em Vermeer, lê, à janela, a carta que Búfalo Bill (não se parece ele com Búfalo Bill?) lhe endereçou.

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Imagem de ser gerado noutro ser, metamorfose, transformação, imagino estar ali escrito:


Avatar:
Meu ser em outro ser se
altera (ou se prolonga?).
Talvez nunca houvera eu
existido e sim o outro,
na mesma face, no mesmo
corpo. Talvez nunca me
fora dado viver; e 
só o outro quem ordena
versos em minha elisão.

E, interposto
entre luz e treva
voo e casulo,
o corpo
vislumbra, grave,
entredentes,
o mistério e eternidade dos seres mudáveis
--- menos em número que em pessoa ---,
que todos somos.

Mama Mia!
Na orelha do papa João XXIII, detalhe da Madona Sistina, de Rafael. 

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Dali resgata a lenda medieval de que a Virgem, mãe (que coincidência!) de outro Salvador, fora emprenhada pela palavra de Deus ao dar ouvidos à anunciação do arcanjo Gabriel. 


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Ele bem que gostaria que o pai (seu xará!) fosse José (e não aquele priápico genitor de Guilherme Tell), 

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e que sua mãe (de nome Felipa e adorada por ele, religiosamente) fosse Maria --- de imaculada conceição antes e depois do parto. 
Dali viveu nos seus azeites porque a mãe não era Extra Virgem.

Freud explica?
Todo casto é um obsceno, proclamava Nelson Rodrigues em Toda nudez será castigada. 
Temeroso de ser devorado por alguma fêmea-louva-Deus, Dali (consta que) foi virgem até os vinte e cinco anos. Natural fosse um grande onanista.

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Sua castidade obscena levou-o a inventar uma surrealista versão do neoplatonismo. Tratava-se do cledonismo: orgasmo provocado pela simples visão do rosto do ser amado. Nem Marsílio Ficcino, com sua castíssima doutrina neoplatônica, foi capaz de tamanha ereção contemplativa.

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Parece que só com Gala gozou Dali de todas as galas matrimoniais (não é o que insinua a sacrossanta aliança no dedo?). Eva capaz de domesticar serpente em pulseira, ela teria sabido decifrar o enigma edipiano do desejo do amado. 

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A um tempo, foi ama de leite e cesto de pão para sua gula.