Daumier, II: Para rir do riso

 

3. Medicina legal?

Concebido como arma de combate ao filisteísmo e farisaísmo burgueses, crente na função catártico-terapêutica da arte, nada mais natural que o Realismo/Naturalismo se servisse também da charge, cujo espírito bélico já estava na etimologia: ataque, carga de cavalaria.

Verdade que naquele século XIX a sociedade andava (como anda até hoje) doente.

A Saúde, segundo Daumier 2

Não se tratava de uma doença molierescamente imaginária. Embora a hipocondria social de que padecemos  desde sempre tudo transforme em males.

Daumier, A doença imaginária

O mal do Realismo/Naturalismo foi, sem CRM, exercer o charlatanismo médico, tudo diagnosticando, sem exceção, como sintoma da ação deletéria do meio, do momento e da raça.

Sintomático resultado da ação do meio e do momento?

O próprio Daumier. Que transformou o traço afiado de sua charge em bisturi, disposto a realizar o auto de exame cadavérico de uma sociedade, a burguesa, que, putrefata, já lhe (a)parecia esbrugada.

  

A Saúde, segundo Daumier
 

4. Cobra a morder o próprio rabo

Com a ingenuidade lorpa dos realistas que creem seja a arte capaz de morigerar e reformar costumes, Daumier desejava fazer-nos contemplar, detida e demoradamente, nossa estultícia social.

Daumier, Badauds

Para isso, insistentemente reúne burgueses papalvos em museus,

Daumier, Domingo no museu

tentando fazê-los, com lupa,  reconhecerem-se, ao vivo, no cinzento das imagens contempladas.

Daumier, Croquis pris au salon 

Ora (direis à Bilac) nosso amigo Daumier está também a ouvir estrelas,

Daumier, A visão

tão papalvo quanto os burgueses que caricatura.

A charge, servindo-se do traço caricatural para ridicularizar as mazelas e defeitos da sociedade, não acaba fazendo com que o riso corretor atinja também a própria arma, isto é, a própria charge? Afinal, para, num jogo de espelho, reproduzir o ridículo social, a charge não teria que refletir, na superfície do próprio traço, os aspectos risíveis da sociedade, fazendo com que, ao cabo, ríssemos também da charge que reflete narcisisticamente a sociedade?

Daumier, O belo Narciso

Se é correta a teoria bergsoniana do cômico, ao proclamar que só rimos daquilo com que(m) não nos identificamos, --- rindo das charges de Daumier,

Daumier, Diz-se que os parisienses...,1869

o tiro de sua arma de combate não estaria saindo pela culatra?  Isto é, se SÓ RIMOS daquilo com que(m) não nos identificamos, ao rirmos dos vícios, defeitos e mazelas sociais retratados por Daumier, conclui-se que NÃO estaríamos reconhecendo neles nossa imagem e semelhança. Daí, talvez, a raiva e desalento de uma arte que, ao cabo, se reconhece inútil ou ineficaz.

Daumier, Ingrata Pátria, não terás minha obra