Daumier, IV: A outra face do riso
 

8. Chorar pelo diafragma

Camilo Castelo Branco dizia que o riso entende com o diafragma e os músculos faciais; já o choro entende com as glândulas lacrimais. Eu, alertado por Camilo, sempre achei que o riso, sendo a outra face da lágrima, o outro lado de visceral sentimentalidade, ora, o riso, senhores e senhoras, não passa de um chorar pelo diafragma.

Assim sendo, Daumier, em suas charges, chorava pelo diafragma. Sua pintura, contudo, tem a ver com as glândulas lacrimais. Nas telas, os dramas cotidianos de uma massa anônima, trabalhadora,

A Lavadeira

(que água sanitária há de lavar a roupa suja da sociedade e ajudar a filha a galgar outros patamares?); ferida por perdas irreparáveis;

O resgate

e que carrega a existência dolorosa como um fardo pesadíssimo, herança que há de transmitir à sua descendência.

O Fardo

Com olhar nebuloso, comovidamente vítreo, o pintor Daumier embaça a realidade. Já não a reconhecemos como (dizem) ela é, ou seja, com os traços a que nossa retina falaciosa está habituada a vê-la.

Ohomem na corda

(O homem na corda, rosto já voltado para o chão, mede a altura da queda, sua pena e castigo de Ícaro que ousou uma escalada social?)

A imagem nítida e crua da realidade fere-lhe a retina? Por isso Daumier foge de retratá-la, nítida e fielmente? Em direção a que outra realidade mais justa, se é que há, pode emigrar a massa perseguida de seus anti-heróis acossados pela fatalidade determinista do meio e do momento e da hereditariedade?

Os emigrantes

Ao cabo, a pintura de Daumier soa-me como um cordel melodramático, cantado

Músicos de rua

para os ouvidos moucos da sociedade burguesa, esse epifenômeno hereditário do farisaísmo e do filisteísmo.

9. Manifestação de amor filial

Inspirado provavelmente em Delacroix,

Delacroix, A Liberdade guiando o povo, 1830

Daumier (o caricaturista, o Republicano, o Realista/Naturalista), Janus trifronte, vislumbrando o passado, o presente e o futuro,

Daumier,  O presente, o passado, o futuro

concebeu a imagem de uma verdade eterna: a República com sua tetas maternais e providas

Daumier,  A República)

─ outra loba a amamentar os rômulos e remos da politicalha e da corrupção.

Em homenagem a Daumier e à atualidade de sua imagem, proponho seja fundado um movimento cívico-patriótico sob o lema edipiano (M)AME-A SEMPRE.