Edgar-Hilaire Germain de Gas (Degas)

*Paris, 19/7/1834 - † Saint-Valéry-sur-Somme, 27/9/1917.

Neto de banqueiro, Degas foi um burguês-fidalgo. Não obstante fadado à cegueira, viu a vida como poucos. (Que o diga a inveja do “realista” Manet. Que o consagre a incipiência da boêmia pictórica de Toulouse-Lautrec, a beber-lhe “O absinto”, a rondar-lhe as “Mulheres diante de um café à noite”.)

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No piscar de seu olho, o clic do instantâneo fotográfico. (Depois, no ateliê, revelava e retocava os negativos de sua retina: sabia quão trabalhoso é fingir a espontaneidade.) Nos cortes e planos e angulações de seus quadros, o cinema projetava nascer: eloquente mudez de imagens.

Apesar de sua deficiência visual (agravada a partir dos 40 anos), apesar de sua amizade com Monet e Renoir, o borrão da miopia dos impressionistas não nubla ou distorce a visão dos seus flagrantes da vida – sempre em movimento num corpo (de mulher ou de baile), no fosso da orquestra, na expressão de um rosto, no nervosismo de um cavalo ansioso por disparar o jóquei da sela.

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Misógino, porque solteirão? Voyeur pedófilo, porque fixado em bailarinas adolescentes? Bicha enrustido, porque acompanha suas amigas à prova de costureiras e chapelarias?

A prova de que tudo fofoca ou maldade, sua série de “Nus de mulheres que tomam banho, se lavam, se enxugam, se penteiam e se fazem pentear” (na oitava e última exposição dos impressionistas, em 1886.) Obcecado também pelo dolorido ofício de lavadeiras-passadeiras, nenhuma sujeira no olhar desse frestador de mulheres durante ou após o banho: veste-lhes a nudez com a pudicícia de clássicas Vênus renascendo das águas.

A atmosfera que se respira de seus quadros não podia ser a mesma do “ar livre” impressionista. O instante irrepetível que buscava captar era o da natureza humana – essa cujo ar nem sempre é livre.