Delacroix

(*Saint-Maurice-Chareton, 26/4/1798    Paris, 13/8/1863)

Fisiognomonia ─ palavrão que se pode traduzir simplesmente por “quem vê cara, vê coração e caráter”. Que nos diz esse autorretrato de Eugène Delacroix?

Pose aristocrática, mas melenas revoltosamente românticas; olhar de esguelha, desafiador das convenções. Bigode a tentar disfarçar os lábios finos, que sinalizam racionalidade, controle emocional, disciplina, teimosia. A covinha vertical no queixo, diz a fisiognomonia, é sintoma de pessoa volúvel, imatura, presunçosa. Narina inclinada para o alto indica impaciência, petulância. Sem falar da testa ampla, atestado de talento.

Não se lhe nota certo spleen, saco cheio à Byron, que, por sinal, foi seu ídolo? Tanto que, inspirado no drama byroniano publicado em 1821, assim ilustrou, com o rigor anatômico do Classicismo, esse massacre:

 

Morte de Sardanapalo

Em Sardanapalo, último rei dos assírios, o autorretrato interior de um tédio mortal, que, cansado da vida, manda incendiar seu palácio, matar suas concubinas e serviçais? Não. Seu spleen ─ modelito de enfant gâté? ─ não chegava a essa loucura de chutar o pau da barraca e jogar tudo pro alto.

Paradoxal, sua temática é dramaticamente romântica, a atravessar com remadas clássicas o Estígio da inspiração,

A barca de Dante

seja no gosto pelo épico de cenas históricas,

A Liberdade guiando o povo

seja na admiração por Chateaubriand, cujo Atala vai dar à luz a tela abaixo,

Os Natchez

e Byron, cujo drama Mazeppa fá-lo (epa!, escapou) pintar a punição, vinda a cavalo,

infligida pelo marido ao herói amorudo, descoberto seu amor adulterino com a dadivosa Condessa Tereza:

Mazeppa

Além, naturalmente, desse romântico avant la lettre que foi Shakespeare, em cujo último ato de Hamlet a caveira de Yorick, o bobo do rei, suscita uma reflexão sobre a morte que, verdadeira marselhesa da igualdade e fraternidade, a todos nivela:

Hamlet e Horácio no cemitério

Contudo, não obstante o descabelamento romântico das cenas, nota-se-lhe a influência de Michelângelo,

Michelângelo em seu estúdio

na preocupação com o rigor anatômico,

O massacre de Quios

e Rubens nas formas femininas opulentas, GGs elegantes,

Medeia furiosa

e Rembrandt, tendo nele aprendido que as cores não podem ser justapostas, mas interligadas a fim de provocar reflexos que brotam delas mesmas:

Aspasia

Victor Hugo referia-se a Delacroix como chefe da escola romântica. O pintor, contudo, dizia-se um puro clássico, talvez porque fosse um conservador nos gostos e atitudes, respeitoso com a tradição. Não era louco a ponto de romper com as convenções sociais. Inscrito em sua mente o exemplo de Torquato Tasso, de quem era admirador:

Tasso no hospício

Não quis vender sua alma ao diabo do Romantismo,

 

Mefistófeles aparece para Fausto

temeroso de não ser consagrado com a Legião de Honra (recebida em 5 de julho de 1846) e deixar de receber encomendas oficiais, cujos traços à Michelângelo são facilmente reconhecíveis:

Decoração de Delacroix na Assembleia Nacional, Paris

 Afinal, que artista, sequioso de reconhecimento, não traz a vaidade pincelada em seu autorretrato? Mesmo que uma mosca venha a esconder-lhe aquela covinha presunçosa do queixo:

Autorretrato