Paul Delvaux

 (*23/9/1897, Wanze, Bélgica – † 20/7/1994, Veurne, Bélgica)

 

Paul Delvaux by Geert Coucke

Exatamente por isso, Magritte, noturno

deve ser o cortejo das imagens surrealistas,

Cortejo noturno, Paul Delvaux

 despertas no inconsciente e no sonho,

aquele momento entre ser e não-ser, cujos laços, de lutuoso violeta,

ainda nos prendem à vida:

O sonho, Paul Delvaux

Flores cultivadas e nascidas à sombra de nossas sombras,

Night Garden, Paul Delvaux

demoníacas tentações súcubas ou íncubas,

As tentações de Santo Antônio, Paul Delvaux

que Vênus sonha por nós e para nós

Vênus adormecida, Paul Delvaux

─ triviais transeuntes de uma realidade inalcançável pelo jornal que lê nossos olhos,

O homem da rua, Paul Delvaux

distraindo-os do que realmente se passa à nossa volta.

Afinal, de carona na vida,

O último vagão, Paul Delvaux

somos só o que passa, a bordo desse bonde chamado desejo de viver,

Rue du tramway, Paul Delvaux

despercebidos do que passa,

City worried, Paul Delvaux

mesmo em meio ao caos que nos circunda.

O Surrealismo dá-me a impressão de ser ele, Surrealismo,  Júpiter; a Realidade, Leda,

Leda, Paul Delvaux

raptada e violada na tábula rasa de nossos sentidos atrofiados. Os ovos nascidos dessa relação deveriam fecundar nossa percepção da realidade ─ se é que ela, Realidade, existe.

Bem que a arte surrealista, oh psicólogos de plantão, gostaria de recriar-nos e seduzir-nos, de modo que o efeito Pigmaleão atuasse sobre nós, pobres mortais,

Pigmaleão, Paul Delvaux

fazendo que nossas expectativas e percepção da realidade coincidissem com as dela, numa ideal e perfeita relação entre criador e criatura.

Aos olhos do Surrealismo, um Spitzner Museum,

Spitzner Museum, Paul Delvaux

ao fim e ao cabo, seria a realidade em que nos inserimos ─ essa desarticulação e descontextualização de significantes e significados oferecidas ao espanto e incredulidade de nossa contemplação.

Ah, o Spitzner Museum foi uma feira-museu de curiosidades médico-científicas visitada por Delvaux, em Buxelas. Numa cabine, esqueletos e uma Vênus mecânica, vislumbradas numa janela velada pelo rubro veludo das cortinas, fascinaram o pintor,

oferecendo-lhe os motivos de sua obra: os esqueletos,

os nus, as gares, os espaços vazios,

Ville rouge, Paul Delvaux

aproximando imagens que, descontextualizadas e esvaziados os significantes de seus significados,

Silent night, Paul Delvaux

recriam uma nova sintaxe discursiva que, marcada pelo anacoluto, revelam o espanto poético inscrito num espaço cujo sentido, servindo de ponte ou viaduto entre o que reconhecemos e o que desconhecemos, só é apreensível por sentidos rimbaudianamente destrambelhados.

O viaduto, Paul Delvaux

No universo de Delvaux ouve-se, silenciosa e meditativa, a melancolia

Eloge de la melancolie, Paul Delvaux

de seres solitários à espera da chegada

Station Forestiere, Paul Delvaux

 ou partida de um desencontro.

Solitude, Paul Delvaux

Nesse espaço preenchido pelo vazio existencial, parece que somos desnorteados

The lamps, Paul Delvaux

transeuntes,

manequins mecânicos

Eccho, Paul Delvaux

cujos repetidos gestos de marionetes

conduzem a lugar nenhum

─ ou ao único destino certo dessa nossa viagem noite adentro:

Mise au tombeau, Paul Delvaux

Afinal, o que fazemos ao longo da existência se não entretermos a Ela com mil e um contos de nossa vida,

Conversação, Paul Delvaux

pedindo-Lhe, por favor, que nos ouça mais essa noite

(só mais essa noite?),

prolongando assim nossa história, não importa quão desinteressante Sherazade ela seja.

Vamos seduzi-La, contando-Lhe o prazer que é viver,

Joie de vivre, Paul Delvaux

implorando para que não nos corte o laço com a vida e com os seres que amamos:

Quem sabe Ela se esquece de nós, deixando-nos ficar para semente desse jardim

The Garden, Paul Delvaux

ou dessa floresta

The awakening of the forest, Paul Delvaux