Édouard Manet: Détails (I)

(*Paris, 23/1/1832 – † Paris, 30/4/1883)

 

1. De jejum no mato

O meu ilustre conviva já atentou em Le déjeneur sur l’herbe, aquela tela de Manet? Já pôs sua lupa nos meandros desse convescote ou piquenique na grama? Eu, por mim, prefiro traduzir (perdoe-se o pão, pão, queijo, queijo da versão) como De jejum no mato.

(Le déjeneur sur l’herbe, Édouard Manet)

Já percorreu o meu ilustre conviva, com olhos despertos e expertos, aquele bucólico cenário em que dois conspícuos cavalheiros estão trajados até à alma, um deles, por sinal, com a bengala retraída na flácida mão? Chegou a reparar que, refestelados sur l’herbe, entretidos numa conversação de cunho talvez platônico, ambos estão em pose de ó nem te ligo, não estamos nem aí ante o déjeuner (petit?, pequeno-almoço?) representado por duas moças que estão a acompanhá-los?

Uma, menos oferecida no alvinitente recato da roupa íntima, ei-la a refrescar-se de seus calores em águas que deveriam estar sendo revolvidas pelos cervos do monte, ou seja (entenda-se a medieval metáfora), por aqueles dois alheados cavalheiros.

Outra, que dá pelo nome de Victorine Meurend, (quem não a conhece no meio e na roda?), nuinha em pelo, sentada de perfil, braço direito apoiado no joelho de modo a que o polegar e índice, em forquilha, lhe descansem o queixo. Tendo-nos surpreendido aqui fora da tela a frestá-los, está a fitar-nos, olhar oblíquo de Capitu que nos sussurra - afinal,  quem vem salvar-nos, a mim e à minha incipiente colega no ofício, desse De jejum no mato, quando suposto era que seríamos o desjejum deles?

Meu ilustre conviva nunca tinha desnudado nestes termos a tela de Manet? Então não percebeu que, estando de frente e de olho para a tela, ali bem no canto inferior e direito da moldura, bem no canto inferior esquerdo do nosso olhar, uma rã dissimula-se, com olhos globulosos,

assinando o sentido do quadro. E a escarnecer de quem, ignorante do gálico jargão (passe o duplo sentido), não saiba que grenouille, além de significar rã ou devota, dá também pelo nome (pardon my French) de puta.