Édouard Manet: Détails (II)

 2. Bar tender bar

Jogo de espelhos que nos atrai e nos engolfa esse quadro de Manet.

 

A bar at the Follies Bergères, Édouard Manet, 1881-1882

Feito ao compasso e esquadro de linhas horizontais e verticais. Que, paralelas, a um tempo, dividem e aproximam planos e significados.

Dois planos cortados pela horizontal que divide os espaços. Ao fundo, o salão barulhento. Pessoas, gargalhadas, retinir de taças, música. Tudo perde seu contorno e nitidez no nevoeiro míope de nosso olhar. Indício de que devemos abeirar-nos do balcão, no primeiro plano.

Balcão em que, rígida, alheada se apoia Suzon. Para evitar talvez a queda.

(Chama-se Suzon a moça; e foi de fato barmaid no Folies-Bergère. Frequentador, Manet a conhecia; talvez até soubesse que, além de servir bebida, ela servisse (discreta belle de jour) também de comida. Donde retratá-la no recato elegante dum traje que não desnudaria, à primeira vista, sua alma bacante. Guardiã e despenseira de champanhes e cervejas; enfim, de gostos e sabores ao alcance de todos os bolsos.)

Imersa em seus pensamentos. Que nos diz o olhar triste e desapontado de Suzon? Como ler em seu silêncio o enigma da visibilidade do quadro de Manet?

 

3. É dose!

Desapontado o olhar que nos encara, como se fôssemos o freguês

que a assedia, com o canto de sereia da poesia barata:

--- O cavalheiro deseja o quê?

--- Além de você, uma taça de absinto. 

 

4. Saideira

Enganosa realidade sempre foi a do espelho.

Erro de perspectiva considerar, ó umbigo do mundo, que, à (sua!) direita, o diálogo entre o cavalheiro e Suzon

foi aquele reproduzido ali em cima. Ela  à frente de um espelho posto às nossas costas.

 A linha vertical que separa o casal de nossa solitária Suzon sugere que foi há pouco tempo atrás que se deu o diálogo que ela, triste e desapontada, recorda. Cega e surda à agitação e barulho das follies.

Messieur Fortune (chamemo-lo assim) era seu golpe do baú. Sua (dela, é claro) alforria daquela vida. O rompimento foi um baque. Tinha que amparar-se da queda, agarrando firmemente no balcão.

Levou algum tempo para emergir de sua dolorosa recordação e perguntar-me:

--- O cavalheiro deseja o quê?

--- Além de você, regada a champanha?

(Resposta dela: o desprezo do silêncio.)

--- Então devolve minha imagem perdida no espelho de teus olhos ausentes.