Desmandos

 

 

1.   VAIDADE: Também estou de olho!

 

Cave, cave, Deus videt. Cuidado, cuidado, adverte Bosch, Deus vê.

Bosch, Pecados Capitais

Nada escapa à sua pupila (azul-celeste?) em cuja órbita giram nossos pecados. Mas eu, ó, também estou de olho,

Emile Redon, O olho, 1881

para cobrar coerência. Afinal, mandamentos pétreos, índice de nossa vocação para o pecado,

José Ribera, Moisés e os dez mandamentos

(em qual mesmo estou sendo indigitado?)

não condizem com o barro lodoso da natureza humana. É o que aprendo nas sagradas escrituras, onde encontro histórias cujos exemplos são de proveito nenhum. (Por isso Ribera lobrigou diabólicos chavelhos na testa de Moisés, a sugerir que mandamentos, impositivos, são uma tentação para desmandos?)

 

2.   IRA: Uma pedra a caminho

 

Nem bem acabou de escrever no chão “Quem nunca cometeu pecados, que atire a primeira pedra”,

 

Pieter Bruegel, o Jovem, Cristo e a mulher adúltera

Jesus mal teve tempo de desviar-se de um calhau disparado das alturas:

─ Pô, Pai! Tá me zoando?

 

 

3.   LUXÚRIA: Álbum de família

 

Está no Gênesis, caso nefando (por que passado em Sodoma?), o de Lot e suas filhas. Incesto. Luxúria. Complexo de Electra.

 

Jean Harmensz Muller, As filhas de Lot, 1600

E Freud ainda nem tinha nascido. Nelson Rodrigues tampouco.

 

 

4.   PREGUIÇA: Bateau Ivre

 

Está explicado, meu caro Rimbaud, por que Noé

Giovanni Bellini, A embriaguez de Noé, c. 1515

meteu na arca tudo em dobro.

 

5.   GULA: Ménage à trois

 

Não minto. Está no Livro de Daniel, capítulo 13.

Posta em sossego estava Suzana e cheia de calor. Dada a hábitos higiênicos, resolve banhar-se. Pede às mucamas que lhe tragam sais de banho, perfumes, óleos esfoliantes, xampu e que saiam, deixando-a a sós com seus pensamentos postos no marido amado.

Mal sabia que há muito era o colírio e delícia e desejo de dois voyeurs.

 

Giovanni Francesco Barbieri, Suzana e os velhos

─Vem ver! Vem ver! A Suzaninha no banho!

─ Meu Deus! Nuinha em pelo!

─Em pelo que nada! Não está vendo ela* se depilando, cara!

─ Nuinha que nem Eva!

─ Que nada. Que nem Lilith!

─ Aquela encantadora de cobras?

 

John Collier, Lilith, 1892

─ Essa mesmo!

─ Só vamos ficar aqui na moita?

─ Tem ideia melhor?

─ Chegar junto e dizer que se ela não der pra nós, a gente põe a boca no mundo, dizendo que flagramos ela # dando para o amante.

(*# Note-se que o mau uso da língua vem de velha data.)

 

Artemisia Gentileschi, Suzana e os velhos, 1610

Você deu? Nem ela. Virtuosa, Suzana não cedeu à chantagem dos velhos:

─ Antes a morte que dar pra vocês, seus velhos safados!

Quem duvida de veneráveis cãs, acima de qualquer suspeita, mesmo a de que ainda há brasa sob as cinzas? Foi levada a julgamento por adultério.

François Boucher, O julgamento de Suzana

Murmúrios fariseus na multidão sequiosa de fofoca e escândalo:


─ Sempre desconfiei daquela carinha sonsa! Daquele olhar pidonho! 

─ Uma despudorada! Vive a tomar banho. E nua!

─ Mulher séria não fica nua nem no banho!

─ Pois é! Assim ao Deus dará! Toda desfrutável!

É aí que, vicário deus ex machina, surge Daniel:

─ Quem, sem pecados, há de atirar a primeira pedra?

─ Deus que me livre de seu calhau!

Competente advogado da providência divina, Daniel há de provar a inocência de Suzana e condenar os dois velhos.

A bem da verdade, diga-se que muito lhe valeu o testemunho de Alessandro Allori. Também ele na moita, tantos e tamanhos os pormenores realistas apresentados:

 

Alessandro Allori, Suzana e os Velhos

 

Não esqueceu nem da cadelinha. Também a correr perigo.

 

6.   AVAREZA: Dá para entender?

 

Escada de Jacó às avessas, a Torre de Babel não é símbolo de progresso material e intelectual. Nem representa a ligação do plano material com o plano superior a que aspiramos.

 

 

Pieter Bruegel, o Velho, Torre de Babel

Embora a língua fosse única e comum, Deus fez que não entendeu nada. E, criando diversas línguas e dialetos justamente para que também não nos entendêssemos, puniu como soberba de perdigão, esse bicho pequeno e vil, nosso desejo de aproximar-se da divindade. Ocupado com crimes (Caim e Abel) e castigos (dilúvio, Sodoma e Gomorra), não concebera ainda a acolhida calorosa para quem deseja reencontrar o Pai.

Rembrandt, O retorno do filho pródigo

Sabem o real motivo da punição?

Em verdade, meus caros irmãos, vos digo que

─ Ah! Entendi.

 

7.   INVEJA: Inconcebível

 

Reconto o que ouvi. Fofoca maledicente de beatas invejosas?

Maria Virgem de Nazaré, moradora em Paudalho (PE), filha de Maria na paróquia do Padre Amaro,

 crente e ingênua a não mais poder,

após ser visitada por José Marceneiro, o do Pombal, cabra arretado, pau pra toda obra,

 

Anunciação, Frei Carlos, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

prostra-se, os joelhos muito doloridos, ante a Imaculada Conceição

 

Imaculada Conceição, Rubens

 e implora:

─ Minha Nossa Senhora, vós que concebestes sem pecado,

fazei com que eu peque sem conceber.