Divina Comédia

Dante e seu poema, Domenico de Michelini, 1640

Almas penadas nesse vale dito de lágrimas,


Almas penadas, Gustave Doré

aos encontrões com o cérbero de nossos demônios subterrâneos,

Dante encontra cérbero, Gustave Doré

desejosos de chegar ao Paraíso,

Paraíso, Sandro Botticeli

de mãos dadas com a casta Beatriz, temos de atravessar o Inferno (assim concebido por Sandro Botticeli: um peão)

 e o Purgatório,

Purgatório, Gustave Doré

da leitura da Divina Comédia, mesmo sonolentos. Tendo como guia Virgílio,

Dante e Virgílio no Inferno, Delacroix

que personifica a Razão, busquemos nele sabedoria e inspiração e paciência. Afinal cada uma das partes tem 33 cantos (só Inferno, para nossa provação, tem um canto a mais). Ao fim, 100 cantos, 14.230 versos hendecassílabos em terzarima, inventada por Dante (a primeira linha rima com a terceira e a segunda com as linhas 1 e 3 do terceto seguinte).

Três personagens nos conduzem: Dante, representando o Homem, Beatriz personificando a Fé e Virgílio, a representar, como já se disse, a Razão. A essa altura já desconfia o leitor que a obra se ergue sobre o simbolismo do número três, que remete à santíssima Trindade, ao triângulo, à estabilidade.

Claro que a travessia dos rios Estige e Aqueronte será feita na carona de Caronte,

Caronte, Gustave Doré

Travessia de Caronte, Alexander Litovchenko

rumo ao Hades.

Hades, Gustave Doré

Para chegarmos ao Paraíso da santidade, não matemos o Leviatã da inveja alheia

A destruição de Leviatã, Gustave Doré

nem nos orgulhemos (olha só o castigo dos orgulhosos)

Orgulho, Gustave Doré

de ter atravessado toda a Divina Comédia, como se fosse divina e nos deixasse satisfeitos com seu final feliz.

Prefiro deixá-los com o surrealismo de Dali, cujo diabo lógico, nesse reino da penitência de ter devorado a Divina Comédia, há de engavetar-nos nos escaninhos do seu e nosso inconsciente.

Afinal, surrealismo é ler versos inteiros ininteligíveis, (ainda no dialeto toscano?), sem conhecimento de Santo Tomás de Aquino e sua Suma Teológica, de que, dizem os expertos, a Divina Comédia seria uma glosa escolástica (como o Homem = Dante pode conciliar a Fé = Beatriz, com a Razão = Virgílio) e resposta às suas dúvidas

dantescas, leia-se, de Dante.