& Cia.

A vizinhança, alarmada, denunciou a fedentina (cadáver?) que vinha do ateliê de Chaim Soutine.

(Bielorrússia, *13/1/1893 – Paris, 9/8/1943)

Teria morrido aquele tipo esquisito que, além de esganar aves, borrava telas e se dizia pintor?

Tratava-se de uma carcaça de carne bovina que Soutine pendurara, esforçando-se por reproduzi-la numa tela,

 Carcass of beef, Soutine.

que, dizem-me as sibilas do tarot, haveria de inspirar Francis Bacon

(*Dublin, 28/10/1909 – Madrid, 28/4/1992):

 

Figure with meat, 1954

Apesar da ressaca,

Utrillo,

Portrait of Maurice Utrillo, Suzanne Valadon

mal saído de um de seus porres dionisíacos,

levou-me ao ateliê de Soutine. O intuito era convencê-lo a não espicaçar a fera da vizinhança com a vara curta de seu pincel.

Soutine confessou que, estudando açougueira e miguelangelamente aquela carniça bovina, tentava ver, captar e dissecar a realidade como ela era,

Butcher boy, Soutine

 para reproduzi-la tal e qual, e não como seus sentidos costumavam percebê-la. Afinal, sua própria imagem ele mal a reconhecia, distorcida no espelho da retina.

Autorretrato grotesco, Soutine

Então não entendíamos que ele tentava exatamente ser aceito pela visão estreita da vizinhança farisaica e filisteia?

Não, não entendi o esforço de reprodução realista do modelo. Verdade que Soutine só pintava com um modelo à frente.

Pra quê? Soutine só via o que se escondia no interior e por trás da dita realidade, fosse ela humana  

The mad woman, Soutine

ou não,

Paysages at Cagnes, 1918, Soutine

graças à paleta de sua alma reveladoramente

 expressionista.

Quem o conheceu de perto como Modigliani, que o retratou várias vezes,

Chaim Soutine, Modigliani

e eu

não haveríamos de reconhecê-lo no espelho do próprio autorretrato, emplastro vesânico à Van Gogh, de quem era admirador:

Autorretrato, Chaim Soutine

Mas que péssimo contador de histórias sou eu que invado a paciência de vocês sem nem mesmo me apresentar. Esquecia-me dizer que sou aquele que lhes apresentou o triste e comovente caso de Modigliani. Lembram-se?

www.pinceladas-fms.com.br/modigliani.html

Pois bem. Minhas cartas-sibilas do tarô me revelaram que Soutine, sem conhecer-lhes a obra, irmanava-se a Ludwig Kirchner

(1880-1938)

A volta dos Animais, Ludwig Kirchner, 1919

www.pinceladas-fms.com.br/kirchner.htm

www.pinceladas-fms.com.br/kirchner2.htm

e a Oskar Kokoschka

(* Áustria, 1/3/1886 – Montreux, 22/2/1980)

seja ao desentranhar dos tipos retratados matizes psicológicos que escapam à tábula rasa de nossa percepção,

Portrait of a girl, Oskar Kokoschka

seja a tirar-nos a venda dos olhos para que enxergássemos a realidade doentia germinada pela  guerra e pela perseguição nazi

─ esse sanguinário ovo da serpente.

The red egg, Oskar Kokoschka

Natural fossem os três condenados a figurar no index nazista da arte degenerada.

Soutine, judeu, angustiado pelo fantasma de uma denúncia, morreu em 1943 com uma úlcera que, bala perdida e ansiosa, lhe perfurou o estômago.

Kirchner, que lutara na Primeira Guerra,

Autorretrato como soldado, Ludwig Kirchner, 1915

em 1938,  suicidou-se, vítima do trauma que lhe amputara a saúde mental (e não a mão, como no autorretrato).

Ainda em 1938, aquando da ocupação nazista da Tchecoslováquia,

Oskar Kokoschka fugiu para Londres,  

onde, naqueles anos de guerra, costeou a fome, como Modigliani. Mas sobreviveu. Talvez ainda alimentado pelo amor vulcânico que,

de 1912 a 1915, vivera com Alma Mahler

(*Viena, 31/8/1879 - Nova Iorque, 11/12,1964)

Duplo retrato (Kokoschka e Alma Malhler), 1912-1913

─ mulher-fatal, viúva-negra, abelha-rainha,

cuja sedução ars gratia artis

fez dançar, ao ritmo de seu descompassado coração,

Self portrait with Alma, Kokoschka

adoradores e maridos temporários, como o compositor Gustav Mahler (1902-1911);

o arquiteto Walter Gropius (1915-1920),

que fundou a Bauhaus School (templo do design, arquitetura e arte moderna em Dessau),

 mas não soube arquitetar o home sweet home-gaiola capaz de cortar as asas de Alma Mahler,

e o poeta

Franz Werfel (1929-1945).

Kokoschka,

talvez a hibernar nos braços de sua Alma (anima?) Mahler,

The tempest/Bride of the Wind, Oskar Kokoschka

sobreviveu à dor de cotovelo

Autorretrato com braços cruzados, 1923, Kokoscka

 (verdade, creiam, que se consolando com a boneca que mandou fabricar, semelhante à amada nos mínimos detalhes, inclusive os mais íntimos, aqueles que nossas avós escondiam sob camisolas eufemísticas chamando-os de pudendos)

Self portarait with Alma Mahler doll, 1921

e à tempestade da Guerra

Alice in wonderland, Kokoscka

 ─ essa também noiva do furacão da insanidade humana.

A provar que morrer de amor é retórica mentirosa

 dos cantares  medievais e que boda e mortalha no céu se talha,

Kokoschka morreu aos noventa e três anos,

The saga of Prometeus I, 1950

legando-nos a dolorosa incandescência de sua paleta recriadora.

Assim como o fizeram Soutine e Kirchner. Também Prometeus que, no trágico ciclo mítico do eterno retorno, foram prematuramente devorados por outras águias assassinas: