Raoul Dufy

(*3/6/1877, Le Havre – Forcalquier, 23/3/1953)

Em 18/2/2015, no Museu Thyssen-Bornemisza (Madrid),

uma exposição retrospectiva de Raoul Dufy:

Como não lhe conhecia a obra, ali estava o ensejo. Lia pelo catálogo estampado nas paredes sua profissão de fé pictórica: o pintor deveria ultrapassar a aparência imediata das coisas em busca de seu rosto mais profundo;

Autorretrato

ao artista não cabe reproduzir fielmente a realidade, mas criar uma interpretação lírica da natureza para emocionar o público pela cor e não a partir do tema representado;

Castelo de Saumur

 o real e o que se vê não são a mesma coisa;

Barcos em Martigues

lição aprendida no fauvismo, liberto dos enganos visuais da realidade falaciosa e do naturalismo, a ele interessava pintar sua própria visão do real, o que via e o que entendia das coisas:

A grande banhista

Até aí nenhuma novidade. Afinal, a Arte está sempre em busca da essência da verdadeira realidade, mesmo que nos tente enganar com a interpretação subjetiva do criador.

Em busca de sua própria linguagem, enveredou pelo Impressionismo,

Mercado de Pescado, Marselha, 1903

esteve à sombra da inspiração de Degas,

 

Ascot

Pista de corrida em Dauville

experimentou o fauvismo de Matisse

Nu

e o construtivismo de Cézanne,

Paisagem em vermelho e amarelo

para, enfim, chegar à alegria da simplificação do traço quase infantil e a jovial luminosidade de suas cores.

Interior com janela aberta

  Campo de trigo

Aqui o grande mérito e segredo da pintura de Dufy: a luz que derivava de suas cores vivas, usadas de forma arbitrária. Dizia ele que o pintor não deveria copiar as cores oferecidas pela natureza, senão buscar nas cores de sua paleta o elemento criador da luz, capaz de iluminar a tela e deslumbrar o espectador.

Plataforma marítima do Cassino Marie-Christine

Dessa perspectiva, natural que Dufy, embora tenha iniciado sob o signo do plain air impressionista, fosse naturalmente um pintor de interiores, já que a realidade repousava em sua imaginação criadora,

Interior

instalado no estúdio,

Interior: estúdio

às voltas com modelos, devidamente emolduradas pelo narcisismo de suas telas:

Dois modelos

De sua teoria da Cor-Luz, chegou à evidência de que “o sol, no zênite, é o negro: deslumbra a ponto de nada vermos.”

Exemplo? A tela aí embaixo,

 

Sainte-Adresse, o cargueiro negro, 1951

em que o sol, visto em seu zênite, abrasa a tela e cega o espectador.

À saída da exposição que nos fique a navegar na retina sua marca registrada: a alegria da Cor-Luz de sua visão da realidade.

Regata

Festa no mar, Le Havre, 1925

Sol que, no zênite, nos há de cegar, fazendo-nos esquecer que um dia, nas primícias da carreira, esteve obscurecido pelo brilho de Degas, Matisse e Cézanne.