Ecce Homo

Ecce Homo, Antônio  Ciseri

Expressão descarnada de nosso espanto (e maldade à parte),

Crucifixion, Delavaux

o Natal deveria ser comemorado com a crucifixão de Cristo, no Gólgota.

Gólgota, Munch

 Afinal, Jesus e o Cristianismo nasceram com sua crucificação,

A descida da cruz, Rogier van der Weiden

quando os discípulos, retirando-o do  Santo Sepulcro

No altar do Santo Sepulcro

 juraram que ele tinha ressuscitado

Burial, Delvaux

e gloriosamente subido aos céus:

Cristo, San Juan de la Cruz

O padre Manuel Bernardes

 

escreveu que Cristo é um livro aberto na cruz, incentivando a que, verbo caro factum est, deixemos de ser a curiosidade descarnada de meros espectadores e reencarnemos, homens ressuscitados, o corpo vivo da doutrina de seus ensinamentos.

Cucifixão, Delvaux

Não se pense que o dito do oratoriano Bernardes seja uma tirada retórico-literária. Conhecia Bernardes a tênue linha fronteiriça que separa a Literatura da Religião, apesar do discurso metafórico usado por ambas. Estéril nosso pasmo de adoração passiva, quais Madalenas contritas e arrependidas, ante a beleza do corpo da doutrina crucificada.

Ecce homo, Dali

É preciso que, metonimicamente, encarnemos a doutrina de Cristo, verônica cuja imagem deve ser a de nossa cara,

Verônica segura a mortalha sagrada, Simon Vouet

ou ela, falo da doutrina, será letra morta, diariamente recrucificada:

Crucificação, Graham Sutherland

Ao pensar o que distingue a Literatura da Religião, escrevi, em Teografias (Aveiro, vol. 3, 2013, pp. 323-331), que, na Literatura, o Verbo pode ser carne, mas não o deseja primordialmente. Se ocorrer a transliteração do Verbo em vida, encarnado em seres e/ou episódios inscritos na realidade fenomênica, terá sido mera coincidência, um trompe-l’oeil, ou seja, enganadora ilusão da realidade. Ainda mais quando, cavalaria quixotesca, pensa ser capaz de corrigi-la ou remodelá-la.

Visions of Quixote, Octavio Ocampo

A metonímia é para a Literatura uma possibilidade, não um objetivo, pois seu espaço geográfico é o da ficção, o do poder ser, o possível verossímil, segundo preceituava Aristóteles em sua Arte Poética.

Já a Religião, se não desejasse ser metonímia, isto é, ver sua doutrina transliterada e “lida” no Homem e na Realidade, estaria destituída de sentido, pois seu espaço sagrado só se funda, enquanto real fenomênico, no aqui e agora.

Se assim não for, o Verbo, troando no deserto,

 soa como letra morta ou muda, recluso na clausura de um tempo e espaço sagrados e distantes, passíveis de descrença, tornados mera ficção.

Na expressão à imagem e semelhança de, tão ressoante da sacralidade que lhe imprimiu o Gênesis, acha-se a linha fronteiriça demarcatória da relação Verbo - Homem - Vida nos discursos literário e religioso. Na Literatura, o Verbo quer apenas ser à imagem e semelhança do homem e da vida. Na Religião, o Verbo quer o homem e a vida espelhados à sua imagem e semelhança.

Calvário, Otávio Ocampo

Na metonímia por fazer-se, graças à transliteração casual ou desejada do Verbo em carne, repousa o livre arbítrio. Que, ao cabo, distingue as vontades da Religião e da Literatura.

Aqui entre nós, homens de boa vontade, dito ao pé do ouvido (mas que todos nos ouçam),

Adoração dos Reis Magos, Bruegel, o Velho

sejamos ─ Verbo feito carne ─, vida e exemplo, reencarnando a doutrina de Cristo. Fazendo-O, enfim, renascer neste Natal.