(*Tulln, 12/6/1890 - † Viena, 31/10/1918)

 

1.

A Pintura sofre do complexo de Narciso. Acha que a planura de sua superfície é espelho cristalino

The human condition, René Magritte, 1931

onde vê refletida sua imagem na  realidade.

O autorretrato sofre do complexo de espelho, buscando o reflexo da própria imagem para reconhecer-se e identificar-se. Afinal, cada um (ó, Jesus!) se vê com os olhos que tem:

Autorretrato, Albrecht Durer

Já em Egon Schiele, vidente de si mesmo,

The self-seers

envolto em aura de sacralidade, o autorretrato

é espelho da alma, a busca do verdadeiro outro eu, do Mr. Hide

Autorretrato com mão na face, 1910

aferrolhado no calabouço sombrio do conspícuo e bem apessoado Jeckyll:

Egon Schiele, o duplo, 1915

 

2.

Esse que se encontra por detrás de nossos pensamentos e sentimentos, poderoso soberano de nossos atos, imagem reflexa que nos aprisiona no espelho,

─ Nietzsche, em Assim falava Zaratustra, denominava-o Selbst. Egon Schiele dava ouvidos ao oráculo nietzscheano.

Obcecado por autorretratos, em poses contorcionadas e extravagantes, Egon Schiele talvez estivesse à procura de seu (e nosso?) Selbst demoníaco,

Autorretrato com cotovelo direito levantado, 1914

lutando dolorosamente para, conhecendo-o, dominá-lo,

 

O lutador, 1913

além de apresentá-lo como reflexo de nossa imagem interior.

Nos retratos de Egon Schiele nosso Selbst nietzscheano nunca será Narciso apaixonado pela própria imagem. Despido da bem-comportada epiderme de nossa persona social,

Eco e Narciso, Richard Baxter

não há de reconhecer-se no espelho da monstruosa imagem:

Nu, autorretrato 2

A água que nos reflete, turvo líquido amniótico,

Porto de Trieste, 1907

é vórtice que nos gesta e nos abisma e nos desfigura nos obscuros domínios uterinos de nosso inconsciente.

3.

Pitié-Salpêtrière, em Paris,

 hoje um centro hospitalar universitário que engloba a maioria das especialidades médicas,

nos séculos XVIII e XIX serviu de asilo e hospital psiquiátrico,

  

Gardens of the hospice de la Salpêtrière, Armand Gautier, 1857

por cujas alas e enfermarias circularam Philipe Pinel

Philipe Pinel at Salpêtrière, Tony Robert-Fleury, c. 1870

e Jean-Martin Charcot.

Lembra-me ter lido algures que Charcot, catedrático de neuropatologia em Pitié-Salpêtrière,

Clinical lesson [by Charcot] at La Salpêtrière, M. Andre Broiullet

acreditava que todos os sintomas psicopatológicos se expressavam, dolorosamente gritantes, à superfície do corpo. Para estudá-los, propôs fossem registrados.

Exemplos?

O arco histérico,

ou seja, a torção da coluna vertebral para trás;

 a contorção e rigidez do delírio histeroepiléptico,

─ que, ele, Charcot, lobrigou

 

captados por Rubens (1577-1640) em Milagre de Santo Inácio de Loiola:

 Freud, que assistira como ouvinte aos cursos de Charcot,

defendia a ideia de que, nos ataques de histeria, estaríamos em presença de uma espécie de inervação por fantasmas inconscientes:

Não sei se Egon Schiele conhecia as teorias de Charcot e Freud, mas seus retratos e autorretratos, contorcidas inervações fantasmagóricas,

 

Autorretrato 2

apontam para um eloquente discurso figurativo de psicopatologia:

Nu com braços levantados

Tronco masculino
 

4.

Face a face com os nus femininos de Egon Schiele, tampouco nosso Selbst nietzscheano, reprimido pelo Superego castrador de Freud, será um voyeur lúbrico. Nosso olho não será o órgão vicário do prazer platônico.

Egon Schiele defende-as de nossa lubricidade, oferecendo-as hirtas, mortas para nossos sentidos:

Nu deitado com pernas afastadas, 1914

Ou como bonecas ─ desconjuntados mamulengos de madeira, atirados ao desprezo de um canto:

Duas raparigas deitadas em sentidos contrários, 1915

Menos que um falo voyeur, nosso olhar deve ter a agudeza de um bisturi para, auto de exame cadavérico, dissecar as entranhas de nosso inconsciente pecaminosamente libidinoso.

Não há prazer nas telas de Egon Schiele. Só o castigo da dor.

Não se deixem enganar pela nudez das aparências:

Self-portrait nude

Na essência de seus quadros ecoa o sermão de um Selbst encarnado no Superego castrador de Freud:

Double self portrait

Danado pelo pecado original, o corpo expõe-se na sem-razão de sua inconsciente fraqueza carnal.

Mesmo o sexo, mais parece o flagrante de um estupro consentido, praticado, a frio, por dois títeres.

Sexual act, study

No escorço da posição teatralmente montada, a fingir a urgência do desejo; no olhar desafiador com que afronta o espectador ─ nota-se a intenção de épater le bourgeois, esse fariseu que veste nossa alma.

Bem visto, (onde enfiar a cara, tamanha a vergonha?)

Amantes

mais uma expressão psicopatológica compendiada por Charcot:

 

5.

A Morte, essa emboscada no útero da vida,

Pregnant woman and death

veio surpreender Egon Schiele em 31 de outubro de 1918, três dias após a morte de Edith Harms (com quem casara em 17 de junho de 1915),  grávida de seis meses.

Ambos, vitimados pela gripe espanhola, foram-se.

Inseparáveis. Resistindo. Abraçados ao espanto do que, embora certo, chegara cedo demais:

Par sentado, Egon e Edith

Ceifa prematura.

Exatamente quando raiavam o sucesso e o reconhecimento.

Sorte inclemente:

na flor da idade

Girassol II, 1909

Girassol

girassóis crepusculares.”

─ inscreveria na lápide de ambos Toshiro Okinawa, que, além de cultivar haicais, é feirante com banca de rosas fugazes e hortaliças anoréxicas.

 

6.

Fantasmagórico Hamlet nesse nosso reino dinamarquês da podridão, Egon Schiele vivera buscando o Ser (ou Não-Ser) da natureza humana.

Truth revealed

Na expressão torturada de suas telas, desvelaram-se as verdadeiras face e alma do ser humano?

Ou fica-nos apenas o desconsolo de, na agonia da morte, irmos, doentiamente, sem que nos conheçamos a nós mesmos?

Agony