Em busca de um sentido perdido?

1. Amizade colorida

Enquanto o crítico de arte busca a autenticidade artística de uma obra, 

rockwell_critico_arte.jpg (123036 bytes) (The Art Critic,Norman Rockwell, 1955, óleo sobre tela)

ponho-me à procura de um sentido perdido.

O signo expressivo da pintura é a cor. Logo, toda pintura é essencialmente abstrata. Cor e abstração são a amizade colorida da pintura.

francis_around_blues.jpg (30013 bytes) (Around the Blues, Sam Francis, 1957, óleo e acrílico sobre tela)

Enganou-se Leonardo Da Vinci, em Paragones, ao conceber a pintura como representação fotográfica da realidade, rápida e univocamente captada pela visão. À moda de Caeiro, desejando ser o Mestre de todos, Da Vinci concebia deíctico e infalível nosso olhar: isso é árvore, isso é rosa, isso é homem, isso é mulher. Pensava Leonardo nas formas consabidas pela tabula rasa de nossa retina.

frankenthaler_montanhas_mar.jpg (206037 bytes) (Mountains and Sea, Helen Frankenthaler, 1952, óleo sobre tela)

E as cores? Que dizem elas, libertas das formas reconhecidas por nossa visão? Não vale recorrer ao título “Montanhas e Mar”. Tampouco vale recorrer às “Vogais” do soneto de Rimbaud: “A negro, E branco, I vermelho, U verde, O azul...” Em tal correspondência, aleatória e subjetiva, só podemos expressar as exclamações do pasmo suscitado pelo discurso inefável das cores.

Faltam as consoantes. Só elas capazes de articular o discurso arbitrário, mas consoante com a realidade (?) que nos habituamos a ver.

 

 

2. Jackson Pollock. Cor. Ab(e)stração

Como traduzir, decifrar, pôr legendas, por exemplo, na expressão pictórico-abstrata de um Pollock?

pollock_ritmo_outono30.jpg (127707 bytes)

Simples, meu caro. Umberto-ecoando, toda obra é escancaradamente aberta. Mire-a e decodifique-a como quiser.

pollock_full_fathom_five.jpg (216640 bytes)

Afinal, a tela está diante de seus olhos para que você sinta, experimente, sofra. Enfim, viva as mesmas sensações do artista ao pintá-la. Se, incapaz de simpatia e empatia, você não sentir com o pintor, sua alma não passa de um odre vazio de spirits. Ao contrário da alma de Jackson Pollock.

Essa, parece-me, é a regra do estelionato artístico-significativo.

Em busca (não de um, mas) do sentido perdido, vejo-me cego ante as formas e significados do mais colorido ab(e)stracionismo.

Por caridade chamem os Guardiões do Segredo

pollock_guardioes_segredo.jpg (175786 bytes) para decifrar a pintura hieroglífica de Jackson Pollock.

 

 

3.      Jackson Pollock by Norman Rockwell

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Esse atento senhor, mergulhado na contemplação de um quadro, é The Connoisseur  (Norman Rockwell, 1962). Quadro dentro de um quadro, a tela examinada é pastiche de uma pintura de Jack “The Dripper” Pollock. Parece tratar-se de Convergência: Número 10, 1952.

pollock_convergencia10.jpg (327544 bytes)

Ou será Sem Título (Odor), 1953-1955?

pollock_odor.jpg (2919129 bytes)

Para além de um figurativismo classicamente fotográfico, Rockwell revela-se capaz de mimetizar o expressionismo abstrato de Pollock. Ou seja, Rockwell é competente a ponto de, gotejando talento, pintar à moda de Pollock.

Seria Pollock capaz de pintar à maneira de Rockwell?