Ensaio sobre que cegueira?

1. Deu branco

Algures, nessas Pinceladas, já escrevi que o signo expressivo da pintura é a cor. Logo, toda pintura (para escárnio e mal dizer de nossa percepção educada no figurativismo) é essencialmente abstrata. Cor e abstração são a amizade colorida da pintura.

Mas as cores... Que dizem elas, libertas das formas reconhecidas por nossa visão? Devemos lê-las pelas vogais do Rimbaud?  A = negro; E = branco; I = vermelho; O = azul; U = verde? 

Elssworth Kelly, Red Blue Green Yellow

Soletrando-as, a que sentido chegaríamos? A nenhum. Afinal, faltam à paleta de nossa percepção e entendimento vinte e uma outras cores-consoantes. Consoantes com nossos sentidos, só elas capazes de articularem o sentido de um discurso?

Barnett Newman, Covenant

Gravado em Courier II, de Robert Ryman,

Courier II

vê-se que, ante o expressionismo abstrato de tais telas,  nos dá um branco total, ao querermos pincelar nossa percepção sobre elas.

 

  

 

2. Vermelho de vergonha

Mark Rothko (* Dvinski, Lituânia, 1903 - † 25/2/1970, Nova Iorque)

A peça Vermelho*, de John Logan, trata da vida e obra do pintor Marcus Rothkovitch, cujos “campos de cor” caracterizavam uma das vertentes do expressionismo abstrato, tendência pictórica que ditava moda pela década de cinquenta nos Estados Unidos com os pincéis de Robert Motherwell (*Aberdeen, WA, 1915 - † Provincetown, MA, 1991)

Robert Motherwell, Elegy to the Spanish Republic no. 134

 

e Jackson Pollock (*Cody, WY, 1912 - †Springs, Long Island, NY, 1956)

 

Jackson Pollock, Number I A, 1948

Pois bem. Em certa altura da peça, do alto de seu ego inflado e inflamado, narcisisticamente a contemplar o escarlate que cobre toda a tela, Rotko berra:

--- E vermelho! E vermelho! E vermelho! Eu não sei o que isso quer dizer! O que quer dizer “vermelho” para mim?

Desse breve trecho da peça saí plenamente edificado quanto ao sentido da pintura de Rothko, quanto à profundidade inefável de suas cores.

Mark Rothko Untitled (Seagram mural sketch), 1959

É vermelho de vergonha por esta minha insensibilidade cartesianamente pétrea, que ouso formular o seguinte silogismo:

a) levando em conta que, na pintura de Rothko, os tais “campos de cor” seriam a livre expressão de sua emoção pessoal; b) considerando que ele não sabe o que lhe diz o vermelho --- c) a que lógica conclusão somos levados? 

Se não peca a frieza insensível de meu raciocínio, --- à de que ele não sabe o que deseja expressar.

Ademais, meus caros e minhas caras, vamos e venhamos, passeando por esses “campos de cor” de Mark Rothko: se todos gostassem do vermelho, o que seria do amarelo?

Mark Rothko, Untitled,  1951-55

A propósito, deem um título, traduzam lá o que lhes diz esse “campo de cor”. Almas compreensivas, ajudem o artista (mas sem esse sorriso amarelo).

Talvez Rothko, a exemplo do vermelho, também não saiba o que “amarelo”

Mark Rothko, Número 10, 1950, MOMA

 

e “azul” e “branco” queiram dizer para ele...

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* Peça estreada em São Paulo no Teatro Geo, em 30/3/2012, com Antonio Fagundes e Bruno Fagundes, sob a direção de Jorge Takla.