Questão de estilo

 

Tenho um amigo que atende pelo nome de Samir Savon. Doutor em Letras pela USP, desejando ficar mais próximo da realidade educacional, milita no ensino secundário.

(Aliás, nesse País, que ensino não é secundário?)

Pois bem, mestrandos, doutorandos e críticos ad hoc, aproveitem lição que Samir Savon pontifica ex cathedra de seu ensino secundário:

O leitor, Honoré Daumier

─ “O que brilha, o que fulgura num livro não é o tema, não é a história. É o estilo com que ambos, tema e história, são esculpidos, lapidados, a camartelo e cinzel.”

O escultor, Stela Medeiros

E, como se fosse Bilac,

longe do estéril turbilhão da rua, Savon, esse pós-moderno cultor do Parnaso,

Andrea Mantegna, Parnassus, 1496-97

cortejando galantemente a Deusa Forma,

espraia-se na explicação para convencer-nos de sua tese:

─ “ Nelson Rodrigues,

castigando o estilo nas arestas e dureza das teclas,

disse que as ‘frases são as obras completas do escritor.’ Disse isso em À sombra das chuteiras imortais (1993, p. 98).

Livro que é a prova eloquente dessa verdade. As crônicas, de 1955 a 1970, datadas no assunto, trazem o amarelo do tempo. Mas não são múmias embalsamadas em papiro. Batendo aquele bolão de sempre, Nelson fá-las palpitar de oralidade, vivíssimas, graças ao estilo rútilo, inconfundível. Quem não sabe que as frases são o outdoor do talento ululante de Nelson Rodrigues.

O estilo, preci(o)so, elegante, não é só o homem, meu preclaro Buffon.

Retrato do conde Buffon, François-Hubert Drouais (1727-1775)

 O estilo é a obra, mantendo-a eternamente atual. Atualíssima, superlativaria o José Dias, do nosso Otelo Dom Casmurro.

E o que é a frase ─ prossegue Samir Savon ─, se não nervo e músculo do estilo no corpo do período? Fala-se em estilo enxundioso, flácido, terso, marmóreo. Logo, é a frase que, academia ou salão de beleza, faz as graças ou feiura do estilo.

Ademais, o estilo é também o autorretrato do autor. Sua cara e focinho. Sua grandeza ou pequeneza.”

Autorretrato, Joel Robinson

Pego o gancho de que o estilo é o autorretrato do autor, seu RG, seu DNA,  e testo a hipótese.

Quem, simplesmente apreciador de artes plásticas, não saberia reconhecer, no espelho do estilo, a feição e identidade dos autores desses quadros?

1.

2.

3.

4.

 

5.

6.

7.

8.

Se, quem me lê, cravou Marc Chagal em 1; Fernando Botero em 2; Paul Delvaux em 3; René Nagritte em 4; Pablo Picasso em 5; Joan Miró em 6; Luis Ocampo em 7 e Salvador Dali em 8 ─  prova que traz a burra cheia de conhecimentos:

Se, esse mesmo que me lê, além de reconhecer o autor, por obra e graça do estilo, ainda nomeou as telas sem um pestanejar de dúvida

1.     I and the village

2.     Jesus meets his mother

3.     The congress

4.     The banquet

5.     O beijo

6.     Painting of Rooster

7.     Monalisa

8.     Metamorfoses de Narciso

─ o mínimo a dizer é que se trata de um portento.

Um experto.

O experto, Norman Rockwell

Por isso, prestes a ser dignificado ─ encadernação em marroquim ─ como enciclopédia pictórica ambulante.

Só ele mesmo capaz de decifrar, tão iguais no derramado estilo dos pingos e respingos, qual a graça (entenda-se também o nome, o título) desse autorretrato narcisístico

de Jack the Dripper Pollock.