Frida  Kahlo, a senhora das Dores

 (*Coyoacán, Cidade do México, 06/7/1907 – † Coyoacán, 13/7/1954)

 

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Decididamente, Frida Kahlo não nasceu com a bunda virada para a lua.

 

O acidente frida_retablo.jpg (122569 bytes), os abortos frida_hospital.jpg (125229 bytes), o divórcio frida_duas_fridas.jpg (118364 bytes),

 

as intervenções cirúrgicas frida_coluna.jpg (133517 bytes),  a perna direita amputada frida_diario.jpg (77862 bytes).

 

Os quadros de sua vida, na forma e no conteúdo, mais parecem ex-votos consagrados à Senhora das Dores.

Não obstante tanta tragédia, em momento nenhum a vejo ou a sinto implorando as lágrimas melodramáticas de minha (nossa?) piedade catártica.

Resta-nos apenas o horror.

 

Espelho, espelho meu...

É a pergunta que, esfíngica, fará ao espelho dos nossos olhos.

 

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Só a retina da câmera de Nickolas Murray, com quem, por retaliação, corneou  Diego Rivera... Tem cabimento o marido, num enredo nelsonrodrigueano, traí-la com a irmã, Cristina?... Mas, dizia eu, só a retina da câmera de Nickolas Murray é objetiva ao revelar-lhe a ternura feminina e maternal que ela sempre mascarou no enviesado olhar duro, no rictus agressivo da sobrancelha cerrada e do buço teimoso.  

Explosão de testosterona explicável da bissexualidade que Diego Rivera (seu príncipe, encantado sapo) machistamente permitia à sombra de sua pança de Sargento Garcia?

Não contenho a piada infame. Se perguntassem a Frida Kahlo a razão do indisfarçável buço, ela responderia que tinha puxado ao pai...

 

frida_retrato_pai.jpg (152947 bytes) ... inclusive, então não veem?, nas sobrancelhas...

Desavinda com a mãe, que a preteriu na amamentação em favor da irmã Cristina, está na cara sua expressão de Electra.

 

Dublê de corpo

 

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Outra legenda (e não aquela lá em cima, tirada de uma canção mexicana dos anos quarenta) imagino para esse autorretrato em que Frida parece cantar sua independência, inclusive sexual.  

Assim:

“Em 1939, divorciada de Diego Rivera e de mim mesma, eis-me macho e fêmea criada, segundo a paixão.”

(O terno balofo não esconde que Diego Rivera continuava a pesar-lhe como segunda pele.)

 

Discrição

Para que, ante esses dois autorretratos, não desandemos a papaguear

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decifrando o sentido oculto da flora e da  fauna que legendam o silêncio de Frida Kahlo, assumamos nossa darwiniana condição de homo sapiens

 

tres_macacos.jpg (45465 bytes) para não indicar o dicionário de símbolos da dupla Chevalier & Gheerbrant.

 

A braços com a vida

Se me pedissem um quadro que sintetizasse a vida de Frida Kahlo, indicaria O abraço amoroso entre o Universo, a Terra (México), Eu, o Diego e o Senhor Xólotl, datado de 1949.  

 

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Já o longo título abraça tudo o que houve de mais significativo e expressivo para sua vida e arte.

Nos braços do Universo que a todos envolve, vemos a deusa-mãe Terra (Cihuacoatl) aninhando protetoramente Frida Kahlo, que por sua vez maternalmente aconchega o marido, Diego Rivera. (Note-se que, no braço trevoso do Universo, dormita, qual mimado pet, o Senhor Xólotl, guardião do Inferno, --- a sugerir que sua vida, inclusive a doméstica com o carente e infantil marido, teria sido um inferno?)

Seu aleitamento, feito no seio gretado da mãe-Terra. Fadada a não ter filhos, dor que sangra do seio esquerdo, ela transfere o instinto maternal para o marido que (fruto do infantilismo de seus ovários?) mais parece um Buda com síndrome de down a ostentar na testa, shakra da inteligência, o olho da sabedoria. (O amor seja de mãe ou amante é sempre cego... Um mal humorado diria que três olhos todos temos. O privilegiado Diego Rivera teria então quatro...)

As figuras enlaçadas tomam a forma de um casulo ou útero em que se enraíza uma flora inóspita cuja agressividade clama aos céus nos galhos espinhosos que mais parecem garras increpadas  contra  nuvens dia e noite carregadas e tempestuosas.

Aí as raízes telúricas, pré-colombianas, da vida dolorosa e do universo artístico de Frieda, essa mexicana filha do judeu húngaro Wilhelm Kahlo.

O quadro diz bem como Frida, oferenda votiva à Dor e à Morte, sempre esteve a braços com a Vida.