Gauguin:

(*Paris, 07/6/1848 – Hiva Oa, Polinésia Francesa, 08/5/1903) 

Autorretrato com Cristo amarelo

à busca de mitos perdidos

Quis recuperar em si o mito do bom selvagem que, nascido bom e puro, foi corrompido pela civilização utilitarista e argentária. Abandonou tudo e partiu em busca do paraíso perdido, na Polinésia francesa,

O dia dos deuses

 em meio a outros bons selvagens.

Sonhos ternos

Só que seu paraíso perdido, outro horto das Oliveiras, já desde a Bretanha, trazia as marcas da sacralidade institucionalizada

Cristo no jardim das oliveiras

pela civilização doentiamente clorótica.

Cristo amarelo

Anjo parodicamente aureolado, herdeiro do pecado original, intuiu trazer em si

Autorretrato com auréola

os estigmas da tentação e do pecado.

Sua luta de Jacó com o Anjo, ao cabo, sua luta com a providência de Deus,

A luta de Jacó com o Anjo

talvez figurasse a tentativa de corrigir ou passar a limpo a criação divina, refazendo-a numa comunhão sincrética em que ainda estava presente ao fundo o espectro do cristianismo.

O grande buda

Quando Eva colheu a maçã tentadora,

Adão e Eva

essa que vai devorar nossa divina condição humana, deixando-nos à mercê de aliciantes mal(efícios), quando nos apoderamos dos frutos da árvore do conhecimento,

nasceu, cruel ironia, nossa indagação metafísica de peregrinos ignorantes do próprio rumo.

De onde viemos? O que somos? Para onde vamos?

Gauguin procurou as respostas refundando o mito

O nascimento de Cristo

em naturezas cuja virginal pureza

The loss of virginity

e bondade, imunes à tentação, cria ele,

Words of the devil

ainda não estariam perdidas.

Mas sua Maria traz às costas

Eu te saúdo, Maria

o fardo de um Cristo já vergado ao peso da cruz dos pecados da civilização corruptora.

No Gólgota de Cristo também morreram os sonhos de Gauguin, ele próprio, sífilis adquirida em Paris, a contaminar com as mazelas da civilização seu paraíso perdido.

Autorretrato perto do Gólgota

Verdade nua e crua: o bom selvagem, que ele acreditava ínsito à nossa natureza, desde sempre estivera condenado à Morte, essa vigilante insone.

O espírito da morte vigia

Afinal, a utopia fica em lugar nenhum.