Gibiografia

Escrever é um divã psicanalítico. Traz à tona, à superfície e espelho do papel, os édipos, ofélias, ecos e narcisos afogados em lodoso inconsciente.

Lembro que, em entrevista ao programa “Perfil Literário”, da Rádio UNESP-FM,

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(para ouvir a entrevista clique em "play" ou se preferir, faça o download do arquivo para o seu computador)

à pergunta feita por Oscar D’Ambrósio (produtor e entrevistador) como tinha sido meu primeiro contacto com a leitura, li em seu rosto o espanto causado por minha resposta: meu primeiro contacto com a leitura fez-se em gibis, na interação imagem/texto.

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Minha infância dos dois aos dez, onze anos, passei-a no Rio sempre fevereiro. Época de primária educação. Morava num prédio à Rua Washington Luís, número 13. À frente do edifício, no outro lado da avenida, havia uma banca, da qual meu pai, voraz leitor de jornais e revistas, era freguês.

O dono da banca de jornal atendia pelo apelido de Chico. (Acreditam em carmas da homonímia?) Seja pela homonímia, seja pela amizade a meu pai, seja por qualquer razão que já não me lembra, o certo é que estabeleci com o Chico Jornaleiro meu primeiro contrato de trabalho/lazer. (Felizmente, ao longo da vida, o trabalho sempre me tem dado o prazer do lazer.)

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Antes que algum politicamente correto venha a falar em exploração de trabalho infantil, adianto que, estudando à tarde, cedo, pela manhã, de livre e espontânea vontade ia à banca do Chico Jornaleiro e lá ficava sentado, a ler todo e qualquer gibi pinçado por

 minha curiosidade     lichtenstein_cientista.jpg (88636 bytes)     ou gosto     lichtenstein_whaam.jpg (233449 bytes).

A prazerosa leitura  lichtenstein_we_rose_up_slowly.jpg (253145 bytes) era o salário de meu trabalho, que consistia em,

na eventual ausência do Chico Jornaleiro, substituí-lo na venda dos jornais e revistas, preciso na aritmética do troco. 

Natural e explicável, pois, que as imagens dessa Gibiografia falem de meu gosto futuro pelas obras-primas em quadrinhos feitas por Roy Lichtenstein.

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Também perfeitamente natural e explicável, meus caros Jung e Freud, que essas pinceladas sobre a pintura alheia venham a assumir a feição de gibi --- imagens também falantes ou pensantes nos balões (inflado ego?) de minhas legendas.