Francisco José de Goya y Lucientes

*30/3/1746, Fuendetodos, Saragoça - † 16/4/1828, Bordeaux, França

 Luces  e sombras

1. Nas graças da intimidade real

Nas graças da intimidade da realeza, caberia pintar o real?

Em 1786, Goya foi nomeado pintor régio (Pintor do Rei); em 1789, pintor da Corte (Pintor de Câmera); em 1799, pintor principal da corte (primeiro Pintor de Câmera). Como se repara, gradualmente, ei-lo a privar da intimidade da realeza. A ponto de pintar Manuel Godoy, primeiro-ministro do rei Carlos IV e (cala-te boca!) amante da rainha Maria Luísa (para mim, a Feia),

(Manuel Godoy como comandante na Guerra das Laranjas, 1801)

            Esse Godoy devia ser dos bons. O Cara --- apesar de detestado na Espanha. Afinal, quem transforma rochedo em aconchegante poltrona, é capaz de ver em Maria Luísa, a Feia,[1] uma Lilith:

           

            Veja-se que, parecendo um Velazquez mal entrevisto nas emboscadas sombras,

(A Família de Carlos IV, 1800-1801)

Goya deixa bem claro uma família cindida pela presença incandescente e inoportuna de uma criança, tida pelas más línguas como rebento do bastão que Godoy ostenta lá em cima entre as pernas e dos fogachos adulterinos da rainha (a Maria Luísa feiosa).

Ah, inocente criança queria ser o talento desse pintor áulico que foi Goya.

   (D. Manuel Osório Manquiquede Zúniga, 1788)

Mal sabia ele que, felina e à espreita, sua observação da realidade ameaçava os voos engaiolados de uma vontade amarrada ao cordel da conveniência.

Eram tais voos engaiolados caprichos da imaginação?

 

2. Caprichos de uma razão adormecida

A razão adormecida, liberta dos cordéis e gaiolas das conveniências sociais, ah essa é capaz de criar monstros indesejáveis e inoportunos para quem é pintor da corte.

(O sono da razão produz monstros, 1797-1798)

Caprichos de um cérebro em combustão,

(Fogo noturno, 1793-1794)

 visões enlouquecidas de um inconsciente tenebroso à solta,

(Pátio com loucos, 1794)

Goya exorcizava seus demônios, condenando os erros, vícios e loucuras da sociedade que, dita civilizada, padecia na verdade de ancestral asnice,

(Recuando até o avô, 1797-1798)

ainda genuflexa e atemorizada pelo espantalho da credulidade beata.

(O que pode um alfaiate fazer!, 1797-1798)

Vindas a lume em 1799 e postas à venda, as 83 impressões de seus Caprichos foram logo tiradas de circulação pelo próprio Goya.

Despertara sua razão de pintor áulico, ao se aperceber que a Razão iluminista sofria de catalepsia na Espanha?

 

3. O estopim dos desastres da guerra

Em 1808 as tropas napoleônicas invadem Madrid. Pouco levou para que os iluministas espanhóis percebessem que a baixeza de Napoleão servia de disfarce para a megalomania de seu sonho imperialista. Em 2 de maio de 1808, um soldado francês é apeado do orgulho de seu cavalo invasor e é quase linchado.

(O Dois de Maio de 1808, 1814)

Os brios gálicos do General Murat, esporão à mostra, cacarejam vingança: qualquer espanhol flagrado com armas seria fuzilado. Majo não desnudo, mas devidamente encapotado, orgulhoso e brigão, que espanhol não trazia à cinta faca pronta a ser puxada?

(Um passeio na Andaluzia, 1777)

Resultado? Cerca de quatrocentos cidadãos comuns foram fuzilados em 3 de maio de 1808.

(O Três de maio de 1808, 1814)

Novamente a catalepsia da Razão produzia monstros: as atrocidades da guerra, reproduzidas em mais de oitenta gravuras a água-forte.

  Que coragem! (Os Desastres da Guerra 7, 1810-1815)

  Aqui também  não (Os Desastres da Guerra 36, 1812-1815)

  Carregamento para o cemitério (Os Desastres da Guerra 64, 1812-1815)

Que mais podemos fazer? (Os Desastres da Guerra 33, 1812-1815)

 

Derrotada em 1813 na Rússia, reduzia-se à sua estatura anã a ambição megalômana e imperialista de Napoleão.   


 

[1] Nossa Carlota Joaquina foi filha de Maria Luísa, a Feia. Quem sai aos seus não degenera, decreta a fisiognomonia genética.