Francisco José de Goya y Lucientes

 Luces e sombras, II

 

4. História de nenhum proveito e exemplo

Quem se submete a mecenatos sejam régios ou estatais (cuidado com as bolsas, caros pós-graduandos!), deve habituar-se à genuflexão e beija-mão subservientes. Nem sempre devidamente recompensados e reconhecidos.

Derrotado Napoleão, Fernando VII de Espanha voltou do exílio em 1814. Goya, para manter sua sinecura de pintor da corte e seu salário, pintou seis retratos do rei. Nenhum encomendado. Um deles é esse aí:

  (Rei Fernando VII com o manto real, 1814, Museu do Prado)

Vamos e venhamos. Nada custava a tão longo manto real cobrir as despesas de Goya, mantendo-lhe o salário. Mas o monarca deve ter achado uma exorbitância o registro gráfico dos horrores daquela (só daquela?) guerra,

  (Isso é pior - Os desastres da Guerra 37, 1812-1815)

produzido por esse pintor que, natural e humanamente, só queria continuar a ser áulico. Os Desastres da Guerra foram jogados na vala comum de um qualquer depósito. Sepultos no esquecimento.

Querem, assim, os tiranetes de plantão impedir que a História seja a memória exumada de nosso esquecimento.

 

5.      Beethoven das Trevas

Exumado de meu esquecimento, lembra-me ter assistido, em 22 de maio de 2007, ao filme Sombras de Goya. Nele, Francisco Goya y Lucientes trazia luminárias não só no nome. Talvez inspirado nesse retrato

  (Autorretrato no atelier, 1790-1795, Museu da real Academia de San Fernando)

o diretor, Milos Forman, pôs, à roda da aba do chapéu goyesco, um candelabro de velas. Coroava-lhe a cabeça com luzes necessárias para devassar as trevas da realidade.

Assim visto, talvez buscasse Goya a agudeza da visão para compensar a surdez, sequela de uma enfermidade de 1793 que passaria a ser recorrente.

  (Goya e o seu médico Arrieta, 1820, Mineápolis, Institute of Arts)

            O pintor comprou em 1819 a Quinta del Sordo. Outro Beethoven, foi capaz de ouvir os sons e fúrias ressoantes no silêncio emboscado da realidade.

Apesar das luzes sombrias, para mim o mais luminosamente expressivo de Goya está em suas telas tenebrosas: Caprichos, Desastres da Guerra. E não só. Grafiteiro avant la lettre, gravou nas paredes da Quinta del Sordo catorze pinturas negras --- essas persecutórias (e caprichosas) sombras junguianas de seu inconsciente demoníaco: Asmodeu

  (Asmodeu, 1820-1823, Museu do Prado)

a devassar  os segredos

  (Dois velhos, 1820-1823, Museu do Prado)

  de nossa libertina e libidinosa condição humana,

  (Duas mulheres e um homem, 1820-1823, Museu do Prado)

  afundada na violência desarrazoada,

  (Duelo com mocas, 1820-1823, Museu do Prado)

  adoradora da maldade,

  (O sabá das Bruxas, 1820-1823, Museu do Prado)

  rastejante na credulidade supersticiosa,

  (A peregrinação a Santo Isidro, 1820-1823, Museu do Prado)

  e prestes a soterrar-se na irremissível solidão da morte

  (O Cão, 1820-1823, Museu do Prado)

  --- essa eterna companheira  que nos acompanha com fidelidade canina ao longo da vida.

Penelopes às avessas, as Parcas

  (As Parcas, 1820-1823, Museu do Prado)

tecem, fio a fio, o Tempo que nos cabe. Afinal, temeroso da imortalidade que por qualquer meio ansiemos com o fito de destroná-lo, a voracidade parricida e filicida de Saturno não poupa a nada ou a ninguém. Na parede da Quinta del Sordo, Goya deixara grafitado nosso epitáfio:

  (Saturno, 1820-1823, Museu do Prado)