Iluminismo das Trevas:

 

Iluminismo, entendido como a mística dos iluminados, fez com que

desvendasse as trevas do Iluminismo, esse movimento dito das Luzes.

Em

www.pinceladas-fms.com.br/goya2.htm

chamei Goya de Beethoven das Trevas. Compensando a surdez com a agudeza da visão, foi capaz de ouver os sons e as fúrias que, inefáveis a olho nu, ressoavam, silêncio emboscado, nessa realidade em que habitamos:

Politicamente correto, foi um Iluminista. Só que teve a lucidez, ou não fora Lucientes seu nome, de entrever o que, adormecido no inconsciente, desperta o sonho ou sono da razão ─ pesadelos, ao cabo:

A ambiguidade de sonho em Espanhol (sonho ou sono) lembra-me Baltasar Gracián: “La primorosa equivocación es como uma palabra de dos cortes, y um significar a dos luces.” Imersa no sono, libertos os demônios inconscientes, a Razão é capaz de produzir monstruosidades. Mas, fruto também do inconsciente interdito, a Razão sonharia quimeras que, enganosas e sedutoras em sua ingênua esperança,

não passariam de outras monstruosidades de que não escapamos.

Em seus 80 Caprichos, vindos a lume em fevereiro de 1799 e gravados entre 1797 e primeira metade de 1798,

                

teve o condão de acordar o que jazia tenebrosamente adormecido no sono ou sonho da Razão,

esse apanágio do Iluminismo, cujos ideais de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, cujo desejo de bem estar geral, cuja luta contra o obscurantismo secular,

ou religioso

─ tudo propaganda boa de bico ─,

 serviram apenas para encobrir ambições colonizadoras e imperialistas,

www.pinceladas-fms.com.br/goya.htm

que levaram à morte esperanças:

Se admitirmos que, obstetrícia de nossos demônios, sejam eles as sombras jungueanas e/ou o Id freudiano, nada mais natural que o Expressionismo dê à luz as trevas de nosso inconsciente. Bem a caráter, a distorção expressionista revela, pois, as carantonhas

ou caricaturas de nossa ancestral

bestialidade ínsita, apta a retratar-nos, nem mais nem menos,

como somos sob as máscaras ─ vãos e vaidosos até o livor final:

As Parcas não habitam a imponderabilidade do etéreo: são nossos demônios inconscientes cujos bruxedos urdem fio a fio o destino que nos prende fatalmente ao da Humanidade:

As asnices e bestialidades feitas em nome da Humanidade de que descendemos

 cumpre-nos arcar com elas:

Os esgares expressionistas de Los Caprichos, mais suas legendas, gritos contra a surda cegueira humana,

 têm uma mensagem: a de que ─ Valete, frates ─ era a hora:

Hora de despertar a Razão de seu sono ou sonho. Esperançoso Goya de que outras Luzes raiassem, espantando a tenebrosa sem-razão humana?

Resta saber quando amanhecerá. E sob que outras luzes. O cepticismo não é só meu.

O pior? Isso:

Homo homini lupus, o homem como lobo do homem, está registrando para nossa lembrança frase colhida em Giambattista Casti, autor de Os animais falantes (1802): “Mísera humanidade, a culpa é tua. Casti.”