Guided tour (ao site)

 (para comemorar três anos das Pinceladas):

 

                                              por Samir Savon (Eu-próprio no Outro, meu caro Zé Régio?)

 

Senhoras e senhores, o site desse museu virtual (e virtuoso?) abre com uma tela de Monet, Sunrise: Impressions,

sublinhada por uma frase de Degas

                (“Vê-se como se quer e é esta falsidade que constitui a arte”.),

que desliza incessantemente, sugerindo a fugacidade das imagens e impressões captadas pelos nossos falaciosos sentidos.

A epígrafe de Degas mais a tela de Monet vêm reforçar a relatividade e a subjetividade impressionistas da visão oferecida pelas Pinceladas sobre a pintura alheia em busca de um sentido perdido.

(clique nas imagens para visitar os verbetes)

            A visita atenta e paciente a esse museu virtual há de revelar um fio de Ariadne

 

que, bússola de tenebroso e adormecido inconsciente, busca conduzir-nos pelo labirinto dos sentidos e significados, procurando despertar-nos, à Chirico, para a compreensão dos enigmas do oculto e do tácito porventura inscritos nas telas. Esse fio condutor representa-o a fuga ao Minotauro do academicismo chato, pesado e incompreensível, devorador da paciência e inteligência do comum dos mortais. A saída, ao fim, estaria no encontro da beleza imagética que faça jus ao discurso pictórico que as palavras aqui escritas intentam traduzir.

            Nesse sentido, a duplicidade significativa do ut pictura poesis (como a poesia, a pintura; como a pintura, a poesia) inspira o diálogo especular travado pela mensagem tácita das imagens pictóricas com a legenda de um discurso que busca traduzi-la poeticamente como se fora um espelho cubista em seus ângulos e visões.

(A menina e o espelho, Picasso)

            Assim, a conversa travada entre Pintura e Poesia, sob a égide clássica do ut pictura poesis, procura dar também sua pincelada sobre a questão leonardo-da-vinciniana do paragone --- isto é, da emulação comparativa das Artes, buscando discutir a problemática questão da superioridade de uma sobre a outra.

            Já que falamos de Ariadne, Minotauro, labirinto, que tal, seguindo o fio da meada, visitarmos a sala destinada às Mi(n)tologias.

Messieurs et madames, enivrez vous com esse brinde pagão aos sentidos. Deixem-se levar pelo bateau ivre dos sentidos destrambelhados, como queriam Baudelaire e Rimbaud, esses insones sonhadores da correspondência sinestesicamente bêbeda dos cinco sentidos. Evoé, Baco!

Recomposta a persona de nossa hipocrisia social, podemos agora visitar essa sala dedicada a retratos... Ah, os retratos, essas lições de Fisiognomonia, quer dizer, a arte de conhecer o caráter das pessoas pelos traços fisionômicos, cara de um (o ser), focinho do outro (o caráter)... Dêem uma boa olhada nesse retrato de Inocêncio X...

Sintam o que lhes parece o Papa aos olhos de Velázquez e aos de Francis Bacon...

            E já que de cara e focinho falamos, querem uma imagem do Autor dessas pinceladas? Visitem então os Autorretrato I e Sem Retoques I e II.

Preferem um retrato falado? Sirvam-se do audio guide  de Gibiografia, It’s free, man...  com direito a breve autobiografia.

.           Agora, se querem mesmo encarar, nos espelhos da fisiognomonia, a fisionomia da Arte tornada Narciso em busca de seu autorretrato na imagem do Outro, que tal mirarem Espelho, espelho meu, vai encarar?

     

Sabem os amigos e amigas quão cansativo pode ser, com passos atentos e contemplativos, percorrer salas e salas de um museu. Maneira de poupar sola, fôlego e tempo? Pegar, logo à entrada, o plano do museu,

abri-lo, página a página, e fazer o seu plano de visita. Percorra apenas aquelas salas-iluminuras de sua preferência. Não deixe seu gosto ser levado por um guided tour.

            Como, minha senhora? Que sugere meu plano de visita? Minha seleção?

            Bem, ora, pois, pronto. Já que insiste. Paula Rego, Caravaggio, Salvador Dali, Rockwell, Velazquez, Frida Khalo, Wahrol, Lichtenstein., Francis Bacon, Vermeer, Bosch, Jean-François Millet...

            Mas vamos lá, não siga meus passos. Percorra os seus.

            And, guys, enjoy the ride. A cavaleiro de Pégaso…

            Tendo chegado ao fim de nosso tour, brindemos, senhoras e senhores, nessa happy hour, o prazer da arte.

Afinal, a noite ainda é uma criança

( Baco criança bebendo, Guido Reni)

(Evoé!) e já tem ela um séquito adolescente na balada.

(Dois rapazes rindo, Frans Hals)

Saúde, irmãos!

  (O alegre bebedor, Frans Hals)