Edward Hopper

(*Nyack, NY, 22/7/1882– † Manhattan, NY, 15/5/1967)

 1. Right time, right place

Pertenço à tribo dos happy few. Sem que planeje ou espere, levado pelo mero acaso, vejo-me sempre na data e local certos, para, ao vivo e em cores, desfrutar de exposições temporárias com quadros de Francis Bacon (no Museu do Prado), Norman Rockwell (no Brooklyn Museum),

    

esculturas de Dali (no Columbus Circle Mall, at 10 Columbus Circle, NY)

   Woman of time

  Nobility of time

   Homage to Terpsichore

 

e, no passado fevereiro 2011, Edward Hopper. No Whitney Museum of American Art, uma exposição de trinta e duas telas sob o tema Modern Life: Edward Hopper and his time.

 

 

2. Sex Appeal

A maioria das telas de Hopper se abre, sedutora e desafiadoramente, convidando-nos a entrar

  High Noon, 1949           South Carolina Morning, 1955

 

ou simplesmente nos pondo na privilegiada posição de voyeurs, a devassar-lhes a intimidade

  Night Windows, 1928       A woman in the sun, 1961  Morning in a city, 1944

 

num apelo (sex appeal?) a que privemos segredos de seu silencioso e solitário universo.

 

 

3. Home sweet home

 Vejam-lhe as casas. Perdidas no descampado

  Rooms for tourists, 1945

ou à beira de caminhos e cruzamentos

 

  Railroad Crossing, 1922-23

assinalam em sua enraizada abulia

 

  House by the railroad, 1925

um tempo que leva a lugar nenhum.

 

            Suas portas... (Em suas portas imagino, à entrada, um capacho --- Sejam bem-vindos, mas limpem os pés...)

Suas portas  (Rooms by the sea, 1951) abrem-se a uma realidade ou esperança, cujo vazio, escancarado, se descortina e ondula a oferecer-nos, mais que travessia sem horizonte, um naufrágio.

            As janelas   (Early Sunday morning,1930) pálpebras mal despertas na sonolenta manhã de eterno domingo, parecem querer acordar algum inconsciente sonho de vida, agitação ou movimento que venha a sacudir, com asas de brisa passageira, o tédio existencial.

 

 

4. Love story, I

Summer evening, 1947

Essa tela de Hopper lembra-me o capítulo LV de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, intitulado O Velho Diálogo de Adão e Eva, que reza mais ou menos assim, se bem me lembro:

Brás Cubas

.  .  .  ,  .  . .   ?

Virgília

.  .  .  . ,  .  .  .  . !

Brás Cubas

.  .  .  .  .  .  .  .  .  .

Virgília

.  .  .  .  . .  .  !

 

Brás Cubas

.  .  .  .  .  .  .  ?

Virgília

!!!!!!

 

E por aí vai, cheio de perguntas, espantos e silêncios reticentes esse diálogo a propósito (acho eu) de como se faz um delicioso apffelstrudel com a bíblica maçã.

 

 

4. 1 Love story, II

Summer evening, 1947

Se vocês acham que de outro teor é a conversa entre Betty e Tom, agucem olhos e ouvidos bisbilhoteiros e decifrem, na cara e postura de ambos, a alternativa certa:

a) apesar do calor da noite, verão que nada vai rolar dessa cantada;

b) verão que não vai colar a desculpa de que nada significa para ele a Jenny ─ aquela zinha com quem ele foi flagrado ontem à noite, no Joey’s, ele, comendo rosquinhas, ela, saboreando banana-split ;

c) se NDA, deem voz ao que não quer calar nesse silencioso e enigmático diálogo.