(Restinga Seca, 18/11/1914 – Porto Alegre, 9/8/1994)

A pintura de Iberê Camargo me intriga e fascina. Seu universo pictórico, de um expressionismo fantasmagórico, raio X de sua alma descarnada e obsessiva,

Fantasmas

com suas bicicletas

Bicicleta e homem

Bicicleta e mulher

Os ciclistas

  e carretéis

Carretéis e dados

Carretéis azuis

são signos

que incomodam minha pobre percepção humana.

Vou a um dicionário de símbolos (traz-me socorro o de Jean Chevalier e Alain Gheerbrandt)

 e nele leio tratar-se  a bicicleta de símbolo de equilíbrio cujo movimento para frente conota evolução da vida exterior ou interior. Como veículo simboliza a evolução em marcha, o sonhador montado no seu inconsciente, seguindo adiante por seus próprios meios.

Cabe a interpretação, ainda mais considerando a busca de equilíbrio no trabalho do inconsciente expressionista.

Já carretéis não me trazem socorro nem Chevalier nem Gheerbrandt. Aventuro-me então a decifrar o enigma esfíngico.

Que pode trazer um carretel?

Linha com a possibilidade de trama, teia que nos enreda, nos confunde apesar do azul ulisses-oceânico, deixando-nos embaraçados, Penélopes

desacorçoadas, sem a esperança de resposta plausível?

Carretéis

Desmontado de meu inconsciente que, mudo, faz-me passar por buda transgênero entronado em obeso sossego,

Idiota

deixo-me devorar pelo enigma que propõe a obra de Iberê Camargo.

Sem título

Razão tinha Degas ao dizer que “Vê-se [a realidade e o quadro, acrescento eu] como se quer e é esta a falsidade que constitui a arte”.

Tudo falso e inútil

Tudo realmente falso e inútil na Arte, mesmo quando não sabemos decifrá-la?