Melodrama de Pedro e Inês

1.   Até o Fim do Mundo

Certeza de reencontro, assim reza a despedida inscrita na roseta

do túmulo de Pedro, o Cru. Aquele cujo amor imorredouro por Inês de Castro

aguarda o fim dos tempos para realizar-se totalmente. Algo assim, meus caros Camões e Vinícius, como tão eterno amor para tão breve vida.

Fernão Lopes,

esse aí a quem dou destaque merecido,

não passe ele despercebido, no Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), como mero figurante dos Painéis de São Vicente de Fora, de Nuno Gonçalves,

Fernão Lopes, ia dizendo eu, na Crônica de El-Rei D. Pedro, procura explicar a perenidade desse mito amoroso, afirmando que a vida sabe como ninguém superar a arte, ao imitá-la. Afinal, Adriana e Dido, Tristão e Isolda, Lancelot e Genevra (acrescentem por minha conta aí na lista Romeu e Julieta, Simão e Teresa) não passam de literário fingimento de amores eternizados pela morte. Pedro e Inês, minha gentil leitora,

Pedro e Inês, Ernesto Ferreira Condeixa

(Lisboa, 20/2/1858 - 2/8/1933)

creia-me, apesar da melíflua pose de valsa de debutantes, foram paixão de carne e osso, nervo, sangue e sexo.

 

2.   Coleção Sabrina

Céptico, tenho outra versão para o lacrimoso melodrama da dita imortalidade do amor Pedro/Inês. Nada melhor para adensar os fumos da paixão

 que o fogo das barreiras e empecilhos. O rei Afonso IV, mata-mouro cujo epíteto “o Bravo” foi conquistado na batalha do Salado (30/10/1340),

Batalha do Salado, Alfredo Roque Gameiro

(Mindo, 4/4/1864 - Lisboa, 5/8/1935)

bufou, vociferou, urrou e tentou impedir, em nome das razões do Estado, da Lei e da Grei, aquela libertinagem do amor adulterino do filho com Inês

bem debaixo de suas venerandas barbas.

Não se culpe a inabilidade irascível do soberano. Na tragicomédia de Pedro e Inês, coube-lhe o papel de senex iratus. Vivendo no século XIV, não poderia ter lido as lições de proveito e exemplo contidas nos casos de Romeu e Julieta, Simão e Teresa, embora convicto de que o amor de Pedro por Inês seria a perdição do reino.

O amor tem sem-razões que a própria Razão naturalmente desconhece?

Já que proibições, afastamentos, exílios só aumentam o fogo da paixão, corte-se, cerce e logo, a insanidade, decepando a cabeça da comborça ─ assim aconselharam Pero Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco, fiéis conselheiros de Afonso IV (e desalmados, diria minha sensível leitora).

Claro que, antes que se consumasse a fera sentença, em 7 de janeiro de 1355,

(qual preferem, a de Karl Briullow

Assassinato de Inês de Castro, Karl Briullow

(St. Petersburg, 12/12/1799 - Manziana, Itália, 1/6/1852)

ou a de Columbano?)

Assassinato de Inês de Castro, Columbano Bordalo Pinheiro

(Lisboa, 21/11/1857- 6/11/1924)

comoventes súplicas ecoaram pelo Paço de Santa Clara,

Súplica de Inês de Castro, Mme. Eugénie Servières

(1786-1824)

transformando a mísera e mesquinha, que depois de morta foi coroada rainha

Rainha depois de morta, Martinez Cubelles, 1887

(Valencia, 9/11/1845 – Madrid, 21/1/1914)

 (com beija-mão e tudo, reza a lenda,

 ─ “Que nojo, meu!”),

Coroação de Inês de Castro, Pierre-Charles Comte

(Lyon, 23/4/1823 – Paris, 1895)

numa eloquente, mas inverossímil e patética, discípula de Cícero, segundo se lê em Rui de Pina (Crônica de Afonso IV) e Camões (Os Lusíadas).

Súplica de Inês de Castro, Vieira Portuense

(Porto, 13/5/1865 – Funchal, 2/5/1805)

 

3.    Essa víscera chamada coração

O nascimento e a perenidade do mito inesiano são fruto peco do pragmatismo filisteu de uma causa mortis motivada e justificada pelo contexto histórico: razões e exigências do Estado a servirem de empecilho e a reprimirem as liberdades dessa víscera cega chamada coração,

 ao impingir-lhe casamentos de conveniência, sem nem ao menos procurar saber se a cara de um era focinho do outro.

Os amantes, René Magritte

Trocando em miúdos, minha sensível leitora: o que ainda hoje nos comove (e alimenta o mito inesiano, cujo coração e estômago se perdem na falta da cabeça) são as fressuras de um Romantismo avant la lettre.

Imperdível a leitura do conto Teorema, de Herberto Helder. Nele, Pero Coelho ─ em cujo saber de experiência feito águas passadas lhe murmuravam que o amor pode ser cântaro já cheio da mútua sede ─, antes de ter seu coração arrancado pelas costas na fúria vingativa de Pedro, diz ao soberano verdade pétrea:

─ Concorreu, sim, para a morte de Inês com o fim de eternizar o Amor de ambos. Se não a matasse, o Amor corria sério risco de definhar de tédio, fadado ao ramerrão e bocejo dos chinelos conjugais.

40th wedding anniversary, Anthony Green

 

4.    As aparências enganam

Vejam esse retrato de Pedro,

Retrato de Pedro I, C. Legrand, 1841

cujo açucarado romantismo é um perigo para os diabéticos anímicos. O olhar meigo e triste perdido na distância, o bigodinho encerado com as pontas para cima, as melenas em cascata ondulosa despenhada sobre os ombros, nada tem a ver com o Pedro da crônica de Fernão Lopes ─ em cujos sintomas ali descritos se baseou o Dr. Júlio Dantas para seu auto de exame cadavérico do dito rei.

Pedro, o Cru, minha senhora, fez jus ao epíteto. Fruto podre duma árvore genealógica enraizada em casamentos consanguíneos, ele foi, segundo o bisturi naturalista do Dr. Júlio Dantas, um caso de teratologia hospitalar e psiquiátrica:

gago; epiléptico; sádico a punir, religiosamente, todo e qualquer adúltero(a)

Alfredo Roque Gameiro

(Mindo, 4/4/1864 – Lisboa, 5/8/1935)

(e ele, que, casado foi legitimamente com Constança e andou prevaricando com Inês, não se autopuniu?);

deficiente auditivo; sofrendo de terríveis e fantasmagóricas insônias que o faziam bailar noite adentro, obrigando, tiranicamente, corte e poviléu a acompanhá-lo; amando seu aio Afonso Madeira “mais do que se deve aqui dizer” (nas aspas reticentes da crônica de Fernão Lopes), chegando a castrá-lo porque Madeira, pau p’ra toda obra, andou se metendo em maus lençóis com outra.

Pedro não era, pois, romântica flor que se cheirasse, como nos quer impingir o conto de carochinha da História. Seja ela a Velha ou a Nova.

Necrófilo, foi hiena a alimentar seu amor doentio com o cadáver de Inês.

Inês, a que depois foi rainha, Lima de Freitas

(Setúbal, 1927 – Lisboa, 1998)

O danado é que sua necrolatria foi capaz de erigir no Mosteiro de Alcobaça

dois monumentais poemas de Saudade eternizada em rocha calcária.

Nos túmulos de Inês

e de Pedro

jazem os restos mortais de um amor que, à espera do fim dos Tempos

(A:E:AFIN:DOMUDO),

sonha despertar.

Para reavivar-se chama. E arder (agora sim?) per omnia secula seculorum.