Educação dos sentidos

 

Kandinsky: ouvidos de ver, olhos de ouvir

 

Caucasiano, estatura média, educação dita superior,

Magritte, A raça branca,1937

sentidos formados à luz (ou será cegueira?) do figurativismo que nos oferece a aparência das coisas e seres como real,

Magritte,  O Espelho falso, 1935

já confessei nessas Pinceladas minha insensibilidade para o significado das cores no abstracionismo. Ora, quem não sabe? No abstracionismo sonha-se com (e vê-se) a recusa radical a qualquer representação do chamado mundo objetivo.

Paul Klee, Dream City

Aliás, o objetivo do abstracionismo é criar um universo à parte,

Wassily Kandinsky, Igreja em Murnau, 1910

uma realidade autônoma concebida pela visão privilegiada (?) do artista.

Foi Wassily Kandinsky (* Moscou, 4/12/1866 -- † Neuilly, 13/12/1944) que, objetivando guiar o cego materialismo de nossos sentidos, em seu livro Do espiritual na arte, atribuiu significados psicológicos e anímicos às cores e às formas. Desejava fazer-nos gozar dos prazeres inefáveis da arte abstracionista, cuja fé professava.

Kandinsky, Pequenos prazeres, 1913

Ainda não satisfeito, para completar a educação de nossos cegos e surdos sentidos, estendeu e associou tais significados aos sons musicais. Objetivava, assim, dotar-nos com olhos de ouvir e ouvidos de ver, tornando-nos capazes sinestesicamente de apreender as associações psicológicas e espirituais emanadas do mais puro cromatismo de sua paleta.

Kandinsky,  Small words, III

Lembram-se de Mark Rothko (na Pincelada Ensaio sobre que cegueira?) berrando apopleticamente, ao contemplar o escarlate que lhe cobria toda a tela

Rothko, Untitled (Seagram mural sketch,) 1959

--- E vermelho! E vermelho! E vermelho! Eu não sei o que isso quer dizer! O que quer dizer “vermelho” para mim?

Graças ao bê-a-bá cromático de Kandinsky, posso agora iluminar o Sr. Rothko, esclarecendo-lhe que o vermelho, “um borbulhar em si mesmo”, é cor quente que, “transbordante de vida, ardente, agitada, efervescente”, conota “força, impetuosidade, energia, decisão, alegria, triunfo”, soando com a impertinência estridente de “uma fanfarra” dominada pelos agudos de histéricas trombetas. (Não é que a carapuça do vermelho serviu a caráter para o ego inflado e inflamado de Rothko?)

Abrindo a burra kandinskyana dos significados cromático-musicais, é com orgulho, senhoras e senhores, que posso, num passe de mágica, traduzir o estado psicológico e espiritual do Sr. Rothko noutra tela.

Número 10, 1950, MOMA

Em tom esverdeadamente* professoral, digo-lhes que o branco, na base da tela, simboliza “pureza, alegria, o início e a eterna possibilidade, a esperança”. Sejam capazes de ouvir “o silêncio” dessa cor, num momento em que o espírito experimenta um estado “de expectativa ou de dúvida diante de uma possibilidade imprevisível”.

Número 10, 1950, MOMA

O amarelo, “a cor mais quente de todas”; cor “da loucura, do delírio, da explosão emocional”; irradiante e excêntrica, conota “um salto para além de todo limite”. Sua forte intensidade faz-nos ouvir “sons extremamente agudos”.

Número 10, 1950, MOMA

O azul, “cor mais fria de todas”; “cor imaterial, capaz de despertar no ser humano um profundo desejo de pureza e de contato com o divino”; “traz consigo a paz e a calma”, não sem uma ponta de tristeza, o que musicalmente, fá-la associar-se a “sons graves”.

Graças ao Sr. Kandinsky, assim munidos dos arcanos cromático-musicais, articulem sintaticamente tais significados e deem o sentido do que avassalava tão contraditória e esquematicamente a espátula anímica do Sr. Rothko naquele quadro intitulado Número 10. Ou, sabendo já o que nos diz o branco, não deixem passar em brancas nuvens essa composição suprematista  do Sr. Kassimir Mallevitch.

Composição suprematista: branco sobre branco, 1918

Ora, (dir-me-ão ouvindo estrelas), o significado cromático-musical proposto pelo Sr. Kandinsky, porque fruto de sua subjetividade exacerbada, serve apenas para expressar o seu estado anímico, não podendo, portanto, alcançar um valor e sentido universais. No fundo, misturadas as cores e os sons, a paleta do Sr. Kandinsky nos revela seu umbigo MEGALOMANÍACO, convencido de que é capaz de ser a súmula universal do que todos sentimos.

Se assim é, durma-se com o estridente silêncio dessa fanfarra cromático-musical do Sr. Kandinsky, que está no MOMA e se intitula Quadro com arqueiros.

Quadro com arqueiros, 1909

Juro-lhes que não se trata de um jogo de esconde-esconde.

 

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* Verde. Segundo Kandinsky, cor calma; nem quente nem fria, está em equilíbrio. Representa um estado de satisfação e realização plenos. O verde soa como um violino, em escalas medianas, sem os extremos de graves ou agudos.